[Crítica] Feito Pipa (2026)
Há uma diferença enorme entre crescer sem saber quem se é e crescer cercado de pessoas que insistem em dizer quem você deveria ser. Em Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton, Gugu gosta de futebol, de dançar, de roupas chamativas e de aparecer com o rosto coberto de brilho. Não parece particularmente interessado em escolher entre essas coisas para agradar aos outros. Mas nem todos ao seu redor conseguem conviver com essa liberdade.
Interpretado por Yuri Gomes, Gugu mora com a avó Dilma (Teca Pereira) em uma pequena comunidade próxima ao açude Araújo Lima. Desde que perdeu a mãe, ainda muito pequeno, é com ela que encontra o carinho e a compreensão de que precisa. Os dois construíram uma rotina própria, cheia de afeto, brincadeiras e pequenas cumplicidades. Dilma não tenta corrigir o jeito do neto nem demonstra preocupação com o que esperam que um menino seja. Para ela, Gugu não precisa mudar absolutamente nada.

Essa relação se torna ainda mais importante quando conhecemos Batista (Lázaro Ramos), o pai do garoto. Incapaz de lidar com a personalidade do filho, ele frequentemente deixa transparecer sua desaprovação e homofobia, criando um distanciamento doloroso entre os dois. Na escola, Gugu também enfrenta provocações de um colega que tenta diminuí-lo por não corresponder às expectativas heteronormativas.
Lázaro Ramos encontra espaço para dar alguma complexidade a Batista. Embora suas atitudes machuquem o filho, a relação não é apresentada como uma oposição simples e sem camadas. Existe afeto, mas ele esbarra em expectativas e preconceitos que o personagem não consegue abandonar.

Mas nada disso parece capaz de destruir sua confiança. Gugu tem amigas, joga futebol muito bem e encontra maneiras de responder às hostilidades sem abrir mão de quem é. O roteiro de André Araújo acerta ao apresentar um menino que não vive permanentemente atormentado por sua diferença. Ele conhece o preconceito e sente na pele diariamente, mas não permite que a visão dos outros defina sua identidade.
O verdadeiro abalo acontece dentro de casa, quando a saúde de Dilma começa a se deteriorar. Diante da possibilidade de perder a convivência com a avó, Gugu assume responsabilidades para as quais ainda é muito jovem. Sua tentativa de esconder a fragilidade de sua avó nasce do medo de que outras pessoas interfiram naquela vida que os dois construíram juntos. Aos poucos, a criança expansiva e despreocupada precisa lidar com situações que ultrapassam sua capacidade de compreensão.

A presença de “Time After Time”, de Cyndi Lauper, música associada à mãe de Gugu, adiciona mais uma camada à relação e aproxima as três gerações de uma mesma família por meio de lembranças e afetos. A delicadeza dessas cenas também deve muito à sintonia entre Yuri Gomes e Teca Pereira. A atriz transmite uma ternura que ajuda a compreender por que Dilma representa tanto para o neto. Já Yuri impressiona pela espontaneidade com que interpreta um personagem de emoções tão diferentes. Ele passa da alegria à irritação, do entusiasmo ao medo, sem que essas mudanças pareçam calculadas, e consegue transmitir a energia quase inesgotável de Gugu sem comprometer sua vulnerabilidade.
Há uma tristeza crescente em Feito Pipa, especialmente porque a ameaça que Gugu enfrenta não pode ser resolvida apenas com determinação. Ele pode confrontar um colega, desafiar o pai ou insistir em suas escolhas, mas não tem controle sobre o envelhecimento e a doença da avó. Pela primeira vez, a sua coragem encontra um problema para o qual talvez não exista uma solução ao seu alcance.

Mesmo com personagens bem construídos, Feito Pipa apresenta algumas limitações em seu desenvolvimento. Determinadas situações seguem caminhos relativamente previsíveis, e a progressão dos conflitos por vezes parece organizada para produzir respostas emocionais muito específicas. O longa também recorre a soluções conhecidas aos dramas sobre amadurecimento, sem encontrar sempre maneiras novas de trabalhar seus temas.
Apesar de tantos elementos abordados, Feito Pipa nem sempre consegue desenvolvê-los com a mesma intensidade. A história da barragem introduz questões sociais e políticas, mas não alcança a força dramática das relações familiares. A deterioração da saúde de Dilma, embora renda algumas das melhores cenas do longa, por vezes desloca a atenção de um conflito entre pai e filho que merecia ser explorado com maior profundidade.
O diretor demonstra facilidade para trabalhar com emoções intensas, mas seus melhores resultados aparecem quando permite que elas surjam da própria convivência entre os personagens. Uma conversa aparentemente banal entre Gugu e Dilma pode revelar mais sobre a relação dos dois do que uma cena elaborada para provocar comoção.

Allan Deberton conduz a narrativa sem transformar o sofrimento no único destino possível para Gugu. A alegria do menino permanece presente, inclusive nos momentos em que ele precisa enfrentar o medo. O filme reconhece as dificuldades de crescer em um ambiente marcado pelo preconceito, mas também encontra espaço para mostrar uma infância vivida com prazer, imaginação e liberdade.
Essa perspectiva impede que Feito Pipa se transforme em mais uma história sobre uma infância LGBTQIA+ definida exclusivamente pela rejeição. O preconceito existe e produz consequências, mas não ocupa todo o espaço da vida do protagonista. Há algo especialmente significativo em acompanhar uma criança que não considera necessário pedir autorização para ser quem é.
Feito Pipa não apresenta grandes novidades em sua estrutura dramática, mas emociona porque mostra que Gugu não está apenas tentando permanecer na casa da avó. Ele quer preservar a vida em que aprendeu a gostar de si mesmo, cercado pelo amor de alguém que nunca exigiu que fosse diferente.
