[Crítica] O Drama (2026)
O diretor e roteirista Kristoffer Borgli não demora a desmontar qualquer clima romântico inicial em O Drama e já introduz um desconforto pouco antes do casamento acontecer. Nos dias que antecedem a cerimônia, Emma, interpretada por Zendaya, e Charlie, vivido por Robert Pattinson, se reúnem com Mike (Mamoudou Athie) e Rachel (Alana Haim), seus padrinhos, para uma degustação que claramente passa do ponto no consumo de vinho.
O que começa como um encontro leve se transforma rapidamente quando surge uma brincadeira sobre confissões pessoais. Cada um deve confessar a pior coisa que já fez. É nesse contexto que Emma revela algo inesperado: na adolescência, chegou perto de cometer um massacre em uma escola, desistindo no último momento. O tema é extremamente sensível, especialmente nos Estados Unidos, onde casos desse tipo continuam frequentes e cercados por debates sobre legislação, acesso a armas e responsabilidade política.

Depois disso, a vida de Emma tomou outro rumo. Ao compreender o impacto real de uma tragédia desse tipo, ela passou a atuar contra o uso de armas, numa tentativa de lidar com o que quase fez. Mesmo assim, o fato de esse passado existir abala profundamente quem está ao redor; a revelação não é recebida da mesma forma por todos.
A partir daí, a dinâmica do grupo se fragmenta e surgem julgamentos, afastamentos e crises pessoais. Rachel reage mal, especialmente por ter ligação com alguém que já sobreviveu a um episódio desse tipo, enquanto Mike passa a encarar Emma com um estranhamento crescente, tentando conciliar a imagem que tinha dela com essa informação.

Em vez de construir uma explicação sólida, a narrativa recorre a fragmentos do passado, exibidos por meio de lembranças e inserções visuais, tentando contextualizar o que poderia ter levado aquela jovem a cogitar violência extrema. No entanto, os motivos apresentados acabam soando previsíveis, girando em torno de bullying e acesso facilitado a armas. Mesmo assim, o filme segue firme em sua proposta e extrai dessa ideia uma série de cenas que oscilam entre o desconforto e um humor inesperado. Borgli equilibra essas forças ao apostar em um humor ácido que é, ao mesmo tempo, desconcertante e reflexivo. A trilha sonora reforça essa sensação, mantendo uma tensão constante mesmo nos momentos em que o filme se aproxima do humor.
O Drama não parece interessado em esmiuçar o conteúdo da revelação em si. Mesmo com lembranças do passado e pequenas cenas que ajudam a montar o contexto, o foco está muito mais nas reações. O que importa não é tanto o ato em potencial, mas o fato de ele nunca ter se concretizado. Essa diferença entre intenção e ação, e a maneira como ela é percebida pelos outros, se torna o verdadeiro eixo da narrativa.

Ao longo do filme, o passado de Emma serve como um espelho e a principal questão não é apenas quem ela foi, mas como isso se encaixa na imagem que Charlie construiu dela e se essas versões podem coexistir. O conflito dele não é exatamente investigar o que aconteceu, mas decidir se consegue conciliar essas duas percepções.
Ao mesmo tempo, as atitudes de Charlie revelam falhas: ao tentar lidar com a situação, ele acaba tomando decisões questionáveis, sem enfrentar o mesmo nível de condenação que direciona a Emma. Rachel também entra nesse jogo de contradições. Dentro da dinâmica do jantar, a revelação dela soa como a mais grave, ainda que ela seja a pessoa que mais reage com desaprovação a Emma. Esse padrão se repete em outras situações, como quando o casal discute demitir uma DJ por uso de drogas, o que só se tornou um problema porque foi visto.

Rachel, aliás, se torna uma peça-chave no conflito do filme. A personagem assume uma postura de julgamento constante, ignorando o peso de suas próprias ações enquanto se coloca como uma espécie de referência moral. Quando o segredo vem à tona, Rachel passa a usá-lo como instrumento de poder, desconsiderando o fato de que sua própria crueldade foi efetivamente concretizada, enquanto a de Emma nunca passou do plano da intenção.
Essa diferença entre agir e não agir é central para o filme. Ainda assim, os personagens parecem relativizar suas próprias falhas enquanto ampliam a gravidade do que Emma fez, mesmo que, no fim das contas, ninguém tenha sido ferido por ela além dela mesma. Um acidente com a arma, inclusive, deixou sequelas físicas permanentes. Mesmo assim, sua confissão é interpretada como sinal de um desvio profundo, enquanto os erros dos outros são tratados como algo menor ou justificável.

Já Charlie vive o conflito de outra forma. Incapaz de conciliar a imagem que tinha de Emma com a nova informação, ele passa a projetar cenários extremos e interpretações distorcidas. Em vez de confiar na pessoa que conhece, começa a enxergar sinais de ameaça em situações banais. Esse processo o coloca em um estado de confusão constante, o que piora ainda mais pela influência das opiniões externas.
Zendaya e Robert Pattinson sustentam o filme com atuações complementares. No início, a relação entre os dois parece leve e natural, o que torna ainda mais impactante a mudança que ocorre depois. Pattinson constrói um Charlie dominado por inquietação, alguém que se perde em suas próprias interpretações, enquanto Zendaya cria uma Emma complexa, que não se encaixa facilmente em categorias simples e mantém sempre uma certa ambiguidade.

As perguntas que ecoam ao longo do filme são: o julgamento depende do ato ou do conhecimento sobre ele? Ações não realizadas podem ser julgadas da mesma forma que ações concretas? Até que ponto a reação dos outros define o peso de algo que nunca aconteceu? É pior quase cometer algo extremamente grave ou de fato realizar algo menor, mas ainda assim condenável? Existe espaço real para redenção? Ou as pessoas ficam presas ao pior momento de suas vidas? Apesar da densidade dos temas, o tom não é pesado o tempo todo. Borgli insere humor de forma constante, muitas vezes quebrando a gravidade das situações com momentos absurdos.
É um filme que incomoda, provoca e, principalmente, convida a refletir sobre como lidamos com as imperfeições, dos outros e as nossas. É um filme que provoca mais perguntas do que respostas e que permanece na cabeça depois que termina. Não por chocar gratuitamente, mas por insistir em explorar zonas cinzentas. Ao mesmo tempo, o filme instiga, mas não responde.

No fim, O Drama sugere que amar alguém envolve inevitavelmente encarar aspectos que essa pessoa preferiria esconder: falhas, medos e decisões equivocadas. E a questão que permanece não é apenas se isso pode ser aceito, mas se é possível continuar depois de enxergar o outro de forma completamente diferente da que foi conhecida até aqui e idealizada.
O Drama consegue equilibrar impacto, humor e complexidade, apoiado em interpretações sólidas e em uma proposta que foge do convencional. É o tipo de filme que funciona melhor quando assistido sem grandes expectativas ou informações prévias, justamente porque boa parte da experiência está em descobrir, aos poucos, como tudo se desenrola, da confissão às suas implicações.
