Crítica

[Crítica] Backrooms: Um Não-Lugar (2026)

Hoje, poucas áreas do cinema parecem tão férteis quanto o terror. É no gênero que têm surgido algumas das ideias mais ousadas, das narrativas mais incomuns e dos usos mais inventivos de referências. E o terror já não depende apenas das figuras clássicas que dominaram o gênero por décadas. Vampiros, assassinos mascarados, fantasmas e criaturas sobrenaturais continuam existindo, mas a cultura digital deslocou parte do medo para outro território. Hoje, muitas das imagens mais perturbadoras nascem de ideias aparentemente simples, de conceitos que circulam pela internet e se fixam no imaginário coletivo até virarem pesadelos compartilhados.

Fenômeno nascido no YouTube, Backrooms chegou aos cinemas como um longa de grande impacto e se transformou em um marco comercial para a A24, quebrando recordes importantes dentro da trajetória do estúdio independente.

Backrooms (2026)

O resultado também coloca o filme entre os títulos mais fortes de 2026 até agora. Aos 20 anos, Kane Parsons surge como um nome que merece atenção. Em sua estreia, ele entrega um terror de atmosfera própria e constrói uma identidade particular, inquietante e difícil de esquecer.

É uma obra que tende a provocar reação enquanto assistimos. Mesmo quem não se conectar completamente com a proposta dificilmente sairá indiferente da sessão. Backrooms é o tipo de filme que pede conversa depois da sessão, justamente por deixar imagens, sensações e perguntas nos rondando.

Ambientado em um período pré-internet, majoritariamente analógico, por volta de 1990, o filme começa em registro de found footage. Na abertura, Naren Warne, interpretado por Avan Jogia, aparece como pesquisador de um instituto ultrassecreto. Com uma câmera de vídeo em mãos, ele se perde no espaço aparentemente infinito dos Backrooms.

Backrooms (2026)

Esse lugar funciona como uma espécie de purgatório psíquico. É um ambiente simbólico formado por salas conectadas, paredes amarelas, móveis de escritório espalhados e portas de tamanhos variados, que não levam a uma saída, mas apenas a camadas cada vez mais profundas do mesmo labirinto. Desorientado, confuso e dominado pelo medo, Naren encontra uma presença ameaçadora: uma criatura ou força que o persegue.

Depois desse prólogo, que estabelece tom, clima e atmosfera, o filme se concentra em Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor, um homem divorciado que administra uma loja de móveis em um centro comercial decadente. Ele tenta lidar com a raiva acumulada do fim do casamento durante sessões com Mary, terapeuta vivida por Renate Reinsve. A própria Mary também carrega traumas antigos, especialmente ligados à infância e às lembranças reprimidas de uma mãe com problemas mentais.

Backrooms (2026)

A virada acontece quando Clark encontra, no porão da loja, uma passagem escondida atrás da parede. O local leva a um imenso labirinto de salas cobertas por um papel de parede amarelo manchado. À primeira vista, aquele espaço parece quase banal. Mas, quanto mais se observa, mais tudo ali revela uma lógica estranha, deslocada, tensa e ameaçadora.

Em algumas salas, móveis aparecem empilhados. Em outras, estão parcialmente engolidos pelo chão. Também há portas no chão ou no teto, objetos presos às paredes e aos tetos, como se aquele ambiente obedecesse a regras físicas próprias. A cada nova exploração, Clark nos mostra que aquele mundo não apenas fica mais absurdo, mas também mais perigoso.

Mesmo sem conhecer previamente a série de curtas de Kane Parsons no YouTube (e eu nunca assisti), a experiência funciona desde os primeiros minutos. O filme consegue envolver o espectador quase de imediato, como se partisse de uma ideia próxima para expandi-la em direções novas e visualmente inventivas.

Backrooms (2026)

Do ponto de vista técnico, Backrooms impressiona. Em imagem e som, o longa tem um trabalho notável. A direção de arte de Alan Derkson e o desenho de produção de Danny Vermette são fundamentais para dar corpo físico àquele universo. O design de som de Eugenio Battaglia e Robert W. Booth também contribui muito para a sensação constante de ameaça. A trilha de Edo Van Breeman, em colaboração com o próprio Kane Parsons, reforça a atmosfera de inquietação, enquanto os efeitos visuais ajudam a transformar o espaço em algo ao mesmo tempo plausível e impossível.

A fotografia de Jeremy Cox aposta em uma composição minimalista, na qual a ausência de excesso se torna parte essencial do medo. Quem imaginaria que um ambiente com uma árvore de Natal e luzes natalinas provocaria frio na espinha, por exemplo? O filme entende que não precisa explicar ou mostrar demais para perturbar. Tudo parece preso a uma lógica de sonho: os espaços são reconhecíveis, mas há sempre um detalhe fora do lugar, suficiente para instalar desconforto, ameaça e horror.

Backrooms (2026)

As atuações de Ejiofor e Reinsve também sustentam essa construção. Os dois tratam os personagens com densidade emocional, sem transformar seus conflitos em simples acessórios da narrativa. Clark e Mary são pessoas marcadas por dores anteriores, e o espaço dos Backrooms parece transformar essas feridas em manifestações diretas, simples na aparência, mas profundamente assustadoras.

Parsons trabalha com a ideia de que aquilo que permanece parcialmente oculto pode ser mais perturbador do que qualquer revelação explícita. Essa escolha funciona de maneira quase impecável. O diretor demonstra domínio raro para uma estreia e deixa a impressão de que sua carreira pode crescer de forma muito interessante a partir daqui. O roteiro, escrito por ele ao lado de Will Soodik, não parece interessado em oferecer respostas definitivas, mas em sustentar a sensação de aprisionamento e estranhamento.

Backrooms (2026)

Backrooms não tenta entregar explicações fechadas para tudo que apresenta. Ao contrário, mantém várias zonas de ambiguidade e permite que o público participe da construção de sentido. Ao mesmo tempo, o universo criado parece amplo o bastante para comportar uma continuação sem perder sua força criativa.

Com esse roteiro, Parsons toma uma decisão inteligente ao manter o mistério principal quase sem resposta. O filme não esclarece completamente o que são os Backrooms, quem ou o que os controla, como funcionam ou por que existem, ainda que situe a história em um tempo específico. Essa indefinição abre espaço para interpretações diferentes, que não se anulam necessariamente.

Os Backrooms podem ser vistos como o lixo descartado de um capitalismo corporativo em estágio terminal. Também podem representar uma manifestação externa da vida interior fragmentada de quem entra ali. Outra possibilidade é que sejam memórias incompletas e mal processadas de uma consciência capaz de atravessar realidades, projeções do inconsciente. Também é possível ler os Backrooms como uma imagem próxima da inteligência artificial: espaços reconstruídos a partir de referências reconhecíveis, mas incapazes de reproduzir plenamente a lógica do mundo real. Quanto mais aquele ambiente tenta imitar uma memória humana, mais artificial, distorcido e inquietante ele parece. Todas essas leituras cabem, assim como a possibilidade de nenhuma delas ser suficiente.

Backrooms (2026)

O grande acerto de Backrooms está na compreensão de que explicar esse universo é menos importante do que fazer o espectador senti-lo. Parsons, mesmo muito jovem, demonstra um grande domínio visual. Ele não trata o filme como um quebra-cabeça convencional, montado para entregar respostas ao público. Seu objetivo é outro: produzir a sensação desconfortável de estar em um ambiente reconhecível, mas atravessado por algo profundamente errado, ainda que seja difícil apontar exatamente o quê. É dessa sensação que nasce a força do filme.

O ponto mais frágil do longa aparece justamente quando ele tenta organizar demais aquilo que funcionava melhor como mistério. Na primeira metade, o filme tem uma força quase hipnótica, movida pela exploração e pela estranheza. Conforme a narrativa avança, Parsons acrescenta elementos simbólicos e psicológicos para ampliar a densidade dramática da história. 

Backrooms (2026)

Essas tentativas de explicação não chegam a esclarecer de fato o enigma e, ao mesmo tempo, enfraquecem um pouco a potência dos espaços quando eles ainda pareciam inexplicáveis. Como tantas vezes acontece no terror, o desconhecido assusta mais quando permanece sem contorno definido.

Também há um problema na inclusão do cientista interpretado por Mark Duplass. A presença desse personagem amplia o universo do filme depressa demais e tira um pouco da atmosfera assustadora e de mistério. Apesar dessas ressalvas, é difícil não sair impressionado com Backrooms.

Os Backrooms não se parecem com lugares comuns de filmes de terror. O horror vem justamente do contrário. São ambientes banais, iluminados por lâmpadas fluorescentes, com paredes amarelas, salas vazias e móveis sem personalidade. Parecem espaços criados por uma entidade que aprendeu a aparência superficial dos lugares humanos, mas nunca compreendeu totalmente sua função. Há sempre um desvio mínimo: um objeto posicionado de forma estranha, uma proporção incorreta, uma organização sem lógica aparente. É como olhar para uma imagem gerada por inteligência artificial antes de ela entender plenamente as regras do mundo real.

Backrooms (2026)

Para um arquiteto fracassado, esse pesadelo funciona como limbo. A presença do alter ego de Clark dentro desse ambiente faz sentido em nível conceitual. O espaço desafia normas ao mesmo tempo em que parece formado por memórias incompletas, fragmentos de ideias e resíduos emocionais. Objetos se fundem a pisos e tetos. Móveis e corpos emergem parcialmente de estruturas que deveriam ser sólidas e confiáveis. Tudo reforça uma sensação inquietante.

A figura cambaleante, perigosa e desesperada do “pirata”, associada à humilhação profissional e pessoal de Clark, revela-se uma grande ameaça tanto para ele quanto para Mary. Ela também acaba entrando nos Backrooms e descobre que suas próprias feridas são suficientes para gerar outra versão de si mesma naquele espaço. Mais uma prisioneira produzida pelo trauma.

Mary consegue confrontar Clark com verdades incômodas sobre sua vida, mas não tem a mesma facilidade quando precisa encarar as próprias. Ela é assombrada por lembranças da infância, pela doença de um dos pais e pelo isolamento familiar. Ele acredita estar feliz naquele lugar. Para Clark, os Backrooms oferecem uma forma distorcida de pertencimento, uma segunda chance grotesca de vida doméstica e subúrbio. Mary quer escapar e luta por isso.

Backrooms (2026)

Parte da força de Backrooms está em sua capacidade de acumular camadas metafóricas sem se fechar em uma única leitura. O filme mantém algumas pessoas do lado de fora e prende outras por dentro. Como alegoria do trauma pessoal, funciona muito bem: um labirinto expansivo, recorrente, circular, que cresce a partir de pesadelos reconhecíveis e enraizados. Mas também funciona como espaço literal, cheio de imagens incompreensíveis e familiares ao mesmo tempo, capazes de fascinar e perturbar.

Há também uma inteligência visual evidente na construção do medo. Parsons entende que o terror nem sempre depende do que aparece de forma frontal. Muitas vezes, ele surge em um canto do quadro, em um ruído distante, em uma ausência ou na suspeita de que alguma coisa está fora do campo de visão. O diretor confia na imaginação do público e permite que o espectador preencha lacunas, o que torna a experiência mais inquietante.

É essa premissa, simples e profundamente perturbadora, que faz de Backrooms uma das propostas mais originais do terror recente. O filme está longe de ser perfeito e não responde a todas as perguntas que levanta. Mas, em grande parte de sua duração, consegue algo mais difícil e mais valioso: fazer o espectador se sentir preso em um pesadelo que se parece demais com a realidade.

Backrooms (2026)

Em muitos aspectos, Backrooms parece levar ao limite uma tendência cada vez mais moderna do terror: transformar em ameaça os lugares comuns da vida cotidiana. Casas, escritórios, lojas, corredores e ambientes de trabalho deixam de ser neutros. Eles se contaminam, se misturam, mudam de forma e se voltam contra nós.

Backrooms é um filme desconcertante, sensorial e psicológico. Ele causa um incômodo que não desaparece de imediato, mesmo quando, em um primeiro momento, talvez seja difícil entender exatamente por quê. É um filme imersivo, inquietante e muito marcante. O terror funciona de maneira hipnótica. Ele não é exatamente assustador no sentido mais convencional e é mais inquietante do que apavorante, mais perturbador do que explosivo.

Ao sair da sessão, a melhor resposta talvez seja admitir a confusão e, ainda assim, aceitar o convite: não dá para saber exatamente o que está acontecendo, mas a experiência é forte demais para abandonar. O cenário labiríntico, a progressão carregada de tensão e o final aberto fazem de Backrooms uma obra que continua rendendo discussão depois da sessão.

VEREDITO: Backrooms é um terror hipnótico, imersivo, desconcertante e muito marcante, que assusta menos pelo susto direto e mais pela sensação de aprisionamento em um mundo reconhecível, mas profundamente errado. Mesmo com algumas explicações que enfraquecem parte do mistério, é uma das experiências mais inquietantes e originais do terror recente.