[Crítica] Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (2025)
Enquanto grandes empresas de tecnologia tratam a ascensão da inteligência artificial como um caminho inevitável, o novo filme de Gore Verbinski surge quase como um contraponto direto a esse discurso. Em Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, o diretor não demonstra qualquer interesse em acompanhar passivamente essa transição. Pelo contrário, constrói uma narrativa que questiona essa entrega quase automática ao domínio tecnológico.
No filme, os clientes de uma lanchonete bastante frequentada em Los Angeles estão tranquilos, entre café e sobremesa, quando a rotina é quebrada por um homem (Sam Rockwell) de aparência desleixada, vestido com sacolas plásticas, que imediatamente causa estranhamento. A princípio, todos tentam ignorá-lo, ainda mais quando ele começa a afirmar que veio do futuro. A situação muda de tom no instante em que ele revela que os dispositivos presos ao seu corpo formam, na verdade, uma bomba.

Durante cerca de dez minutos, o personagem – creditado como “O Homem do Futuro” – domina a cena em um longo discurso. Ele afirma estar recrutando pessoas ali mesmo, entre os frequentadores do local, para impedir que a inteligência artificial leve a humanidade à ruína. Diz ainda que aquela situação já se repetiu inúmeras vezes, sempre com as mesmas pessoas e no mesmo ambiente. Ao compartilhar informações específicas sobre alguns deles, consegue plantar a dúvida: talvez ele realmente saiba do que está falando. A partir daí, um grupo de oito pessoas decide segui-lo pelas ruas, embarcando em uma tarefa que tem todos os sinais de ser arriscada ao extremo.
A narrativa então se expande para flashbacks que revelam o passado dessas pessoas, evocando um tipo de distopia cotidiana semelhante ao que se vê em episódios de Black Mirror: adolescentes dominados pelo uso de celulares, um projeto governamental que cria clones de vítimas de tiroteios escolares, e uma jovem que sofre com alergia a tecnologias como Wi-Fi.

Entre os integrantes estão professores como Mark, vivido por Michael Peña, e Janey, interpretada por Zazie Beetz, exaustos de competir com telas pela atenção dos alunos. Há também Susan, personagem de Juno Temple, que perdeu o filho em um ataque em escola e encontra uma forma tecnológica de reencontrá-lo. Ingrid, vivida por Haley Lu Richardson, vê sua vida mudar ao se envolver com alguém mais interessado em universos virtuais do que no mundo real.
A direção é de Gore Verbinski e o roteiro é assinado por Matthew Robinson. Juntos, eles constroem uma aventura acessível que, ao mesmo tempo, tenta alertar sobre os riscos de deixar a inteligência artificial dominar a cultura. A ideia central do filme, um homem que diz estar revivendo pela 117ª vez a missão de impedir um colapso causado pela inteligência artificial, o coloca ao lado de referências conhecidas, como Feitiço do Tempo (1993).

No entanto, Verbinski não segue esse caminho de forma previsível. Ele constrói algo instável, quase imprevisível, como um jogo que muda de direção a cada instante. O roteiro de Matthew Robinson adota uma estrutura fragmentada, cheia de retornos ao passado que ampliam o universo dos personagens, mas acabam diluindo um pouco a força dramática ao priorizar o acúmulo constante de ideias.
A narrativa funciona mais como uma experiência sensorial do que como uma história tradicional: diferentes tramas, elementos de ficção científica, críticas sociais, humor absurdo e criaturas ligadas à lógica algorítmica coexistem sem uma organização clara na maioria das vezes. O resultado é ambíguo: ao mesmo tempo em que estimula, também cansa. Para o filme funcionar, é preciso aceitar uma premissa incomum e acompanhar situações que frequentemente flertam com o absurdo.

Há momentos visualmente fascinantes, mas a obra raramente desacelera o suficiente para aprofundar suas próprias propostas. Verbinski parece mais interessado em reproduzir a sobrecarga típica do mundo digital do que em organizá-la em uma leitura coerente. Em alguns momentos, essa abordagem ganha força, principalmente nas histórias paralelas que exploram impactos mais íntimos dessas transformações tecnológicas.
Porém, o próprio filme às vezes enfraquece essas ideias com soluções simplistas ou humor pouco sutil. Em vez de aprofundar os pontos mais inquietantes e interessantes, opta por lançá-los em meio ao fluxo contínuo de estímulos.

O aspecto mais interessante da proposta está na forma como o apocalipse é construído. Não há aqui catástrofes naturais ou ameaças externas. O colapso nasce de dentro, da própria dependência tecnológica. Redes sociais, ambientes virtuais e até soluções artificiais para lidar com perdas emocionais aparecem como ferramentas que prometem conforto, mas acabam funcionando como mecanismos de alienação. Em vez de libertar, esses recursos criam uma sensação de satisfação imediata que mantém as pessoas passivas e desconectadas da realidade.

Sam Rockwell é um dos pontos altos do filme. Sua atuação, cheia de energia e presença, mantém o personagem em equilíbrio entre clareza e delírio. O ator consegue imprimir humanidade a um papel que facilmente poderia se perder na confusão geral e ficar caricato. Ao lado dele, o restante do elenco funciona menos como vários protagonistas individuais e mais como um retrato coletivo de desgaste contemporâneo.

O desfecho não sustenta completamente a complexidade proposta pelo film. O último ato se alonga e perde parte da força construída anteriormente. Mas isso não anula o seu impacto. Ironicamente, é justamente nesse desequilíbrio que reside parte do interesse da obra.
Ao tentar abranger demais e recusar qualquer organização clara, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra acaba incorporando o mesmo caos que critica. Funciona como uma sátira que adota a forma do seu próprio alvo: fragmentada, acelerada e incapaz de permanecer em uma única ideia por muito tempo.

Em vez de apenas contar uma história, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra propõe uma reflexão sobre o impacto da tecnologia na forma como nos relacionamos com o mundo. A crítica não é simplista nem completamente literal; funciona mais como uma metáfora ampliada das consequências de uma exposição constante a telas, redes sociais e conteúdos que disputam atenção o tempo todo. Assim, o filme serve como um espelho distorcido da nossa realidade.
Ainda assim, o filme se destaca pela disposição de arriscar. Em um cenário cada vez mais dominado por fórmulas previsíveis, sua inquietação funciona como um diferencial, mesmo quando não se sustenta por completo.
