Crítica

[Crítica] A Cronologia Da Água (2025)

A estreia de Kristen Stewart na direção, desenvolvida ao longo de anos e inspirada no livro autobiográfico de Lidia Yuknavitch, chega com impacto. O filme se apoia fortemente na entrega de Imogen Poots para conduzir uma narrativa nada convencional sobre uma escritora tentando se reconstruir após traumas profundos vividos na infância, marcados pelo abuso cometido pelo próprio pai, que também atingiu sua irmã.

A Cronologia da Água

Em vez de seguir uma linha narrativa tradicional, A Cronologia da Água se organiza de forma fragmentada, quase sensorial, alternando tempos e memórias com uma estética granulada em 16mm. A proposta estética tenta algo ambicioso: traduzir diretamente o fluxo mental de Lidia Yuknavitch para a tela. Em vez de organizar a narrativa de forma linear, o filme se constrói como um mosaico fragmentado, onde tempo e memória não seguem regras claras. Aos poucos, no meio desse aparente caos, uma trajetória vai se delineando.

No centro da história está Lidia, interpretada por Imogen Poots, uma jovem que cresce em um ambiente familiar violento e encontra na natação competitiva, no cenário do noroeste dos Estados Unidos nos anos 1980, uma primeira tentativa de fuga.

A Cronologia da Água

Quando esse caminho deixa de existir, a narrativa passa a acompanhar sua trajetória por relações afetivas intensas, vícios, descobertas sexuais, experiências próximas da maternidade e um padrão recorrente de autodestruição. É nesse percurso turbulento que a escrita surge, não como vocação imediata, mas como uma forma de continuar existindo.

O filme opta por sugerir o abuso sexual em vez de mostrá-lo diretamente, mas isso não diminui o impacto. Ele é sugerido por meio de som e imagem, criando uma experiência mais sensorial do que narrativa. O que aparece de forma explícita é a violência emocional: humilhações constantes, controle, provocações e uma crueldade cotidiana que se impõe nos detalhes. A câmera frequentemente se posiciona de baixo para cima, reforçando a sensação de ameaça, com o rosto do pai ocupando o quadro de forma distorcida, quase monstruosa.

A Cronologia da Água

A montagem, assinada por Olivia Neergaard-Holm, tem papel central nessa construção. O filme se organiza a partir de cortes rápidos, imagens muito próximas e cenas que surgem sem contexto imediato, mas que, combinadas, formam uma espécie de poema visual da memória da personagem. O trauma aparece como algo latente, sempre pronto para interromper qualquer sensação de estabilidade. Mais do que os acontecimentos em si, o que permanece são as sensações.

A Cronologia da Água

Apesar dos temas pesados, A Cronologia da Água não se define apenas pela dor. Há também uma dimensão de resistência e continuidade, marcada pela capacidade da personagem de seguir em frente, mesmo após repetidos colapsos. Essa combinação impede que o filme se torne apenas opressivo e maçante, oferecendo também uma perspectiva de reconstrução.

A Cronologia da Água

O filme também aborda a relação com o pai em outro momento da vida, quando ele apresenta sinais de demência. A decisão de acolhê-lo novamente, mesmo diante do histórico de abuso, reforça a complexidade da personagem e sua tentativa de lidar com o passado de forma menos destrutiva.

Um dos aspectos mais eficazes do filme é justamente a recusa em induzir o espectador a pensar ou sentir algo. Não há esforço para tornar Lidia mais simpática ou para conduzir uma resposta emocional específica. A história é apresentada com respeito, permitindo que suas contradições existam sem filtros. 

A Cronologia da Água

Assumidamente caótico e com uma energia que não tenta se organizar, o filme mergulha na mente conturbada de Lidia Yuknavitch como se nos convidasse a montar, por conta própria, os pedaços dessa história. Além das relações e eventos, o filme é atravessado por um elemento simbólico constante: a água. Seja na piscina, no banho ou em momentos de dor física, esse elemento conecta diferentes fases da vida da personagem, funcionando como um elo entre memória, fuga e enfrentamento. A presença recorrente da água ajuda a dar unidade a uma narrativa que, na estrutura, evita qualquer linearidade.

A Cronologia da Água

A Cronologia da Água constrói um retrato direto e sem suavizações de uma sobrevivente, ao mesmo tempo em que destaca o papel transformador da arte e da expressão pessoal diante do trauma. Imogen Poots sustenta o filme com uma atuação intensa e vulnerável. A estrutura fragmentada não é um recurso gratuito: ela dialoga diretamente com a forma como a memória opera. O filme sugere que lembrar não é um processo linear, mas algo que avança e recua, se intensifica ou se dissolve, muitas vezes ativado por detalhes aparentemente insignificantes.

Como estreia, A Cronologia da Água revela uma diretora com identidade clara e disposição para explorar o cinema como linguagem e experiência. É um filme sensorial, inquieto, carregado de tensão emocional, que encara o processo de reconstrução de uma mulher a partir de uma perspectiva crua, marcada por sexualidade e raiva, sem tentar suavizar nada. O filme dirigido por Kristen Stewart faz escolhas firmes e não demonstra receio de causar estranhamento. Isso pode tornar o filme irregular em alguns pontos, mas também o torna difícil de ignorar.