[Crítica – Mostra SP 2020] Mate-o e Deixe Esta Cidade (2020)

Mate-o e Deixe Esta Cidade não tem uma narrativa tradicional. O longa de estreia do polonês Mariusz Wilczyński aborda um tema pesado, o luto, com imagens bem fortes e por vezes perturbadoras. O tempo do longa de animação se passa como em um sonho, sem cronologia certa e com o agora misturado com o passado e com o futuro, tudo ao mesmo tempo.

Também assim como um sonho, há partes em que o sentido não fica claro e o melhor é apenas sentir o que aquelas cenas nos causam. É necessário ter a disposição de entrar nessa viagem para, ao final, receber a recompensa de ter passado pela experiência. A animação foi construída com inspiração na própria biografia do diretor Mariusz Wilczyński e ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Annecy. Na história, vemos Mariusz criando um mundo onde todos os amigos e entes queridos que já partiram ainda existem.

Entre as várias cenas marcantes, seja pelo texto ou pela estética, dá para destacar a conversa com a mãe no leito de morte. A cena explica bem a intenção do filme em refletir sobre o fim. É preciso encarar a perda e o fim. A temática é universal e fácil de se relacionar. Ainda assim, Mate-o e Deixe Esta Cidade é totalmente pessoal. Mesmo trazendo temas tão comuns a tantas pessoas, os contornos da mente do cineasta estão ali. É como um exercício terapêutico.

São as memórias do diretor, mas também seus medos e pesadelos. “Eu simplesmente não acredito na morte. Todo mundo que se foi, simplesmente se for. Eles não morreram, estão vivos na minha imaginação”, diz o avatar de Wilczyński em determinado momento. Poderia ser como um consolo em algum filme. Aqui, onde estamos vendo a sua imaginação, a frase se transforma em uma provocação.

É uma animação fragmentada, crua, raivosa e brilhante ao discutir a dor com uma estética única. Com imagens tão brutais, Mate-o e Deixe Esta Cidade não tenta celebrar a beleza humana e sim nos contar uma história com um toque alucinatório e sombrio, com mensagens fora de ordem, seguindo fluxo do inconsciente de forma melancólica.

Não é um filme fácil de ver e muito menos de escrever sobre. Por todo ele, segue um tom melancólico, nostálgico ou de angústia. Mas é um filme bonito e com uma identidade bem única. As técnicas de animação em 2D e em 3D com os desenhos feito à mão criam uma bonita fábula sobre memória e luto. Se você entrar nessa história, terá como recompensa imagens surreais, impressionantes e totalmente originais de uma forma crua.

Mate-o e Deixe Esta Cidade faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 22 de outubro e 4 de novembro em formato online

Vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Annecy. Também foi exibido no Festival de Berlim

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