[Crítica – Mostra SP 2018] A Casa Que Jack Construiu (2018)

A Casa Que Jack Construiu é mais um filme provocante de Lars von Trier. O filme tem várias cenas de violência pesada contra mulheres. Elas não são as únicas vítimas do protagonistas. Também há animais, crianças e homens entre suas vítimas, mas poucas cenas são tão fortes quanto as contra personagens femininos.




Aqui, Lars von Trier assume mais do que nunca seu papel de provocador. O filme é uma investigação de um serial killer dos anos 70 e também uma descida ao inferno… literalmente. O filme também fala sobre arte e criação. O diretor retorou ao Festival de Cannes sete anos após ser banido do evento (ele fez piadas desnecessárias sobre ser um simpatizante nazista). Ele retornou ao festival fora da competição, mas continuou causando polêmica. Dessa vez, algumas cenas de A Casa que Jack Construiu causou desconforto em algumas pessoas, que abandonaram sua exibição no festival francês.

Vamos lá: o filme fala sobre a jornada do serial killer Jack (Matt Dillon) ao inferno. Ele descreve momentos-chave de sua “carreira” de serial killer ao poeta Virgílio (Bruno Ganz). O assassino divide sua narrativa em cinco incidentes, que fazem parte de um total de mais de 60 assassinatos. O longa tem dois momentos de maior humor. O primeiro, no primeiro incidente, em que a personagem de Uma Thurman detalha todos os motivos que fazem Jack parecer um assassino em série. Outro momento de humor é quando Jack tem um surto de TOC após matar uma mulher. Ele passa a imaginar manchas de sangue pela casa da mulher em vários locais improváveis e retorna ao local diversas vezes para limpar, mesmo sem nenhuma mancha de sangue aparente pelo chão ou parede.




A Casa Que Jack Construiu não é fácil de assistir. Apesar desses dois momentos de maior humor, o filme tem várias cenas violentas indigentas. Após cometer os assassinatos, ele tira fotos muito bem pensadas e envia de forma anômica para jornais, que o chamam de Sr. Sofisticação. Se nos dois primeiros incidentes Jack podia ainda não ser uma figura repulsiva, isso muda a partir do terceiro e quarto incidentes. Ele deixa de ter qualquer característica carismática, se é que isso era possível até aqui. Numa das cenas, ele mexe e altera o corpo morto de uma criança… não me impressionaria se muitas pessoas abandonaram a sessão do festival após essa cena. A longa e sádica dele com a mãe e seus dois filhos também é difícil de assistir.

Jack e Virgílio questionam o papel da arte e a violência como sua expressão. Jack não parece ter exatamente ódio contra suas vítimas. Mas ele tem uma assustadora falta de empatia por elas. Ele acredita que as mulheres são culpadas por serem assassinadas. Ele mata uma por “reclamar demais”, outra por “ser burra”, outra por “ser ingênua”. Ao mesmo tempo em que pratica as atrocidades, Jack tenta construir a sua casa (essa que é citada no título do filme). Assim como sua compulsão por assassinar, um ciclo que nunca se esgota, sua casa também nunca é concluída; ele sempre precisa desconstruir e começar novamente.




O filme também conta com algumas críticas à sociedade em geral. Enquanto Jack mata várias pessoas a sangue frio, notamos que as pessoas não se importam com o próximo. De nada importa uma mulher gritar em desespero na janela pedindo socorro, nenhum vizinho se importa. De nada importa uma mulher pedir ajuda ao policial, ele não está interessado. Jack chega a confirmar tudo o que a mulher falou para o policial, mas de nada adianta. O policial aconselha que os dois parem de beber e vai embora.

Lars von Trier continua com alguns elementos comuns aos seus filmes. A câmera na mão, trilha sonora não-convencional, narrativa recheada de ironias… E dessa vez também há citações a si mesmo, com trechos de vários de seus filmes anteriores. Até a infame “piada” sobre “compreender Hitler é citada aqui, quando o narrador fala sobre a “habilidade” de Hitler em causar tantas mortes impunemente.

A Casa Que Jack Construiu tem os dois personagens principais, Jack e Virgílio, como alter egos de Lars von Trier. Jack acredita que seus crimes hediondos são obras-primas. E todas as suas atrocidades são vistas por ele como tentativas de criar sua obra-prima definitiva. Vale destacar Matt Dillon aqui. O ator está perfeito no papel, com um ar sombrio e sádico na medida certa ao tentar transformar seus assassinatos em obras de arte icônicas. Bruno Ganz como Virgílio, a consciência do filme, também é um destaque. Ele é o responsável por entregar Jack ao inferno e tem importância principalmente no epílogo.




O filme é provocativo, longo e arrastado em alguns momentos. Apesar de momentos interessantes, também há momentos em que parecemos estar assistindo algo vazio, que não vai levar a lugar algum. É um bom filme, mas com certeza não é um filme que desejarei (ou terei estômago) de assistir novamente. Inquietante e prolixo, o filme foi feito para provocar as mais diversas reações e indignar o público.

Curiosidade: Em setembro de 2014, A Casa Que Jack Construiu foi anunciado como uma minissérie de 8 episódios. Nesta época, a versão completa de Ninfomaníaca estreou no Festival de Veneza. Em fevereiro de 2016, o diretor anunciou que a até então minissérie seria o seu próximo longa-metragem, com estreia prevista para 2018.

A Casa Que Jack Construiu faz parte da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo




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