[Crítica] Segredo Obscuro (2024)
Há filmes que acabam prejudicados pelo momento em que chegam ao público. No caso de Segredo Obscuro, porém, o problema não se resume a isso. O longa provavelmente não funcionaria muito bem em qualquer contexto, mas sai ainda mais enfraquecido quando colocado ao lado de A Substância, de Coralie Fargeat, produção mais afiada, mais extrema e mais eficiente ao lidar com temas bastante parecidos.
Max Minghella claramente tenta chegar a esse território do exagero, e o filme até encontra algum charme camp em alguns momentos, quando veste essa camisa. Mesmo assim, falta entrega. Segredo Obscuro parece querer brincar com o absurdo, mas não abraça a proposta com força suficiente para que ela realmente funcione.
Ainda há momentos curiosos no filme, alguns engraçados de propósito, outros nem tanto, além de imagens que chamam atenção. A abertura, por exemplo, já tenta misturar estranhamento e humor: um cachorrinho aparece correndo por um corredor escuro de uma mansão, até ser seguido pela câmera para um banheiro. Ali, a personagem de Elizabeth Berkley surge dentro de uma banheira cor-de-rosa, vestindo um robe de seda no mesmo tom, em pânico enquanto tenta remover marcas escuras da perna com uma faca. A cena termina com ela desmaiando, deixando o objeto cair, enquanto o cão se aproxima.

É um começo promissor, mas o que vem depois se perde em uma combinação irregular de melodrama, sátira sobre Hollywood e comentário cansado sobre a indústria do entretenimento. Samantha, vivida por Elisabeth Moss, acredita estar indo a uma reunião com o diretor de um drama independente, o tipo de projeto em que a própria Moss poderia atuar na vida real. Na verdade, descobre que se trata de uma audição aberta. O papel, de uma mãe solteira divorciada com dois filhos, acaba ficando com Chloe Benson, personagem de Kaia Gerber. Chloe mal parece ter idade para viver alguém com esse histórico, mas é jovem, bonita e popular nas redes sociais, e isso basta dentro da lógica do filme. Depois da humilhação, os representantes de Samantha, incluindo uma agente interpretada por Ziwe, sugerem com uma falsa preocupação bastante calculada que ela passe um tempo na clínica Shell.
A empresa Shell tem como rosto a CEO Zoe Shannon, interpretada por Kate Hudson. Em um ambiente que lembra um spa de luxo, pessoas como Samantha podem tentar afastar o medo da irrelevância passando por um procedimento ambulatorial em que seu DNA é misturado ao de uma lagosta, ou algo nessa linha. O resultado seria uma versão mais jovem, mais forte, mais alta, de pele perfeita e olhar luminoso. O filme explica bastante esse funcionamento, mas quase nada realmente se fixa. O que rende melhor são as piadas mais ácidas, ainda que elas também não tragam exatamente uma novidade. A ideia de que Los Angeles é um lugar superficial e falso já foi explorada muitas vezes antes, embora aqui ainda consiga arrancar algumas risadas pontuais.
Segredo Obscuro parece fazer críticas que outros filmes já formularam com muito mais precisão. Existe uma máxima na comédia segundo a qual uma piada que precisa ser explicada talvez não seja tão boa assim, e algo parecido acontece aqui. Em alguns momentos, não fica claro se determinadas escolhas são paródias conscientes ou apenas escolhas cafonas.
O filme também tenta se aproximar do horror corporal, mas de novo não vai longe o bastante para se destacar. Samantha vomita uma substância escura; em outro momento, pessoas próximas a Zoe participam de uma cena em um jantar que tenta transformar a protagonista em uma espécie de figura sacrificial, mas a ideia não se desenvolve. Há ainda as protuberâncias que aparecem quando o procedimento “dá errado”. Quando surgem em grande quantidade, o efeito causa repulsa, mas não chega ao nível de impacto que um filme desse tipo parece pedir.

À medida que Samantha mergulha em um território mais conspiratório, a narrativa também deixa passar a oportunidade de aumentar a tensão. A urgência deveria estar presente, mas não se sustenta. A passagem para um clima de thriller paranoico não convence. Samantha não recebe a profundidade necessária. Moss a interpreta com uma ingenuidade meio deslocada, quase sempre de olhos arregalados diante do que acontece ao seu redor. Há instantes em que o filme parece querer sugerir uma sombra mais cruel ou perigosa na personagem, mas essas possibilidades surgem sem continuidade e acabam parecendo fora de lugar.
Segredo Obscuro só parece realmente encontrar energia nos 20 minutos finais, quando assume com mais força o lado de filme B, horror corporal e criatura grotesca. O problema é que essa virada chega tarde demais e provoca uma quebra brusca de tom, tarde demais para fisgar o espectador. O desfecho sugere o que o filme poderia ter sido caso tivesse aplicado a mesma ousadia desde o início. Em vez disso, a obra passa grande parte do tempo incerta sobre que caminho seguir, deixando o risco concentrado apenas no fim, quando os elementos de horror finalmente são elevados ao máximo.
Segredo Obscuro se torna um caso típico de homens tentando contar uma história sobre mulheres e suas inseguranças, mas confundindo a simples exposição desses problemas com uma investigação real sobre eles. Não basta afirmar que o sexismo e os padrões injustos de beleza existem. É preciso questioná-los, desenvolvê-los e incorporá-los a uma narrativa que pareça orgânica, especialmente quando quem conta essa história não pertence ao grupo retratado.
Em vez de examinar de maneira mais incisiva como o patriarcado usa e descarta o corpo das mulheres, Segredo Obscuro leva sua protagonista por caminhos cada vez mais bizarros e resume sua crítica a perguntas diretas demais sobre por que ela deveria se importar com a própria aparência.
