Crítica

[Crítica] Cinco Tipos de Medo (2025)

Cinco Tipos de Medo, vencedor do Festival de Gramado, é um daqueles filmes em que a experiência funciona melhor quanto menos informações você tiver. Isso acontece por causa das revelações que surgem ao longo do filme, claro, mas também pela forma que o roteiro é organizado. O roteiro é feito com uma estrutura fragmentada que conecta, aos poucos, as trajetórias de cinco personagens centrais, todos tentando, à sua maneira, mudar o rumo de suas vidas.




O filme conta a história de Murilo (João Vitor Silva), um músico que ainda lida com o luto pela morte da mãe durante a pandemia, que se envolve com Marlene (Bella Campos), a enfermeira que o acompanhou nesse período. No entanto, ela mantém um vínculo com um líder do crime organizado, Sapinho, interpretado por Xamã. O que une as trajetórias desses e outros personagens do filme não é apenas o acaso, mas a própria violência (ou suas consequências) funcionando como linguagem comum entre pessoas que, em outras circunstâncias, dificilmente se cruzariam.

Cinco Tipos de Medo (2025)

Dentro da narrativa fragmentada, Sapinho atua como elemento de ligação entre os diferentes núcleos: os jovens Marlene e Murilo, a policial Luciana e o advogado Ivan. Ainda que o crime tenha papel central, o filme amplia seu escopo ao abordar outras questões sociais. A obra propõe um retrato do Brasil a partir de um olhar cuiabano, região que pouco vemos ser retratada no cinema nacional, e incluindo temas como dependência química, falhas estruturais na segurança pública e a condução do início da pandemia de Covid-19.

Cinco Tipos de Medo (2025)

Construir uma história não linear envolve o risco de desequilibrar o peso dado a cada personagem, mas o filme consegue manusear bem essa questão. Um de seus principais méritos é justamente manter todos os núcleos relevantes, sem que nenhum deles pareça deslocado. Ainda que certos trechos exijam maior atenção do espectador, o resultado final é consistente. 

Cinco Tipos de Medo (2025)

Bruno Bini, que assina direção e roteiro, constrói uma espécie de corrente de agressões, em que um ato violento gera outro em resposta, criando um ciclo contínuo de retaliação. A dor de um personagem alimenta o desejo de vingança do outro, que, por sua vez, provoca novas reações, ampliando o alcance do impacto. Nesse tipo de história, os destinos se entrelaçam de tal forma que nenhuma história existe de maneira isolada, e cada decisão reverbera sobre outras vidas.




O elenco mantém um nível consistente de atuação, conseguindo sustentar o interesse mesmo quando o texto não oferece a mesma complexidade. Mas a montagem é a principal qualidade de Cinco Tipos de Medo, já que ela é peça fundamental na articulação de todas essas narrativas. Ao alternar entre diferentes linhas temporais e pontos de vista, o filme mantém um bom ritmo, avança com fluidez e garante o envolvimento constante do espectador.

Cinco Tipos de Medo (2025)

O filme também acerta ao sugerir que a violência urbana não se restringe a quem a pratica diretamente, mas se espalha de maneira imprevisível, atingindo pessoas que, em tese, estariam fora desse circuito. Cinco Tipos de Medo é um filme tecnicamente sólido, sustentado por um roteiro bem arquitetado e uma montagem de qualidade, que conduz toads as narrativas e argumentos até o ponto planejado.