[Crítica] Os Enforcados (2024)
Em Os Enforcados, Fernando Coimbra transforma a clássica tragédia Macbeth, de William Shakespeare, em um thriller ambientado no universo do jogo do bicho no Rio de Janeiro. A produção, estrelada por Leandra Leal e Irandhir Santos, traz uma releitura da peça com personagens inspirados nos arquétipos originais, mas inseridos em um cenário de corrupção, violência e ambição familiar. O longa mergulha em um Rio de Janeiro urbano e nada turístico, onde milícias, jogadas de azar e pactos duvidosos se cruzam em meio a decisões erradas e ambições frustradas.
Regina é pragmática e ambiciosa; Valério, inseguro e hesitante. Quando tentam orquestrar um golpe final para garantir uma vida melhor, o plano se desfaz rapidamente, revelando os conflitos internos do casal e os perigos de um submundo instável. A narrativa acompanha a escalada de erros que os dois cometem, como peças de dominó caindo uma após a outra.

Regina, interpretada por Leandra Leal, assume o papel que remete diretamente a Lady Macbeth, a mulher que convence o marido a agir, tomando para si o papel de catalisadora de uma sequência de decisões irreversíveis. Em vez de castelos e coroas, a disputa é por dinheiro, poder e domínio sobre o império criminoso herdado por Valério (Irandhir Santos), personagem que representa a versão carioca de Macbeth. Valério cresceu cercado pelos negócios ilegais do pai e do tio, irmãos gêmeos vividos por Stepan Nercessian, mas acredita que conseguiu manter certa integridade.
A estrutura do filme replica o eixo central da peça de Shakespeare: um casal que acredita ter em mãos um plano infalível para ascender ao poder, mas que acaba preso em uma espiral de paranoia, culpa e violência. Valério é movido pelo desejo de agradar a esposa e manter o que resta da fortuna da família, enquanto Regina enxerga na tomada do império uma chance de finalmente conquistar o respeito que julga merecer.

Os Enforcados não busca apenas modernizar uma tragédia clássica, mas contextualizá-la com elementos do Brasil contemporâneo. Ao inserir Macbeth no centro de uma rede de contravenções cariocas, o longa constrói uma crítica indireta a estruturas de poder que ainda operam sob lógica hereditária, violência e silêncio. O resultado é uma narrativa que respeita suas referências, mas encontra identidade própria na adaptação.

O destaque absoluto do elenco é Leandra Leal, que entrega uma performance magnética, alternando charme e manipulação com naturalidade. A atriz domina cada cena como Regina. A personagem é construída com ambiguidade e força: em um momento manipuladora e calculista, em outro, à beira do colapso emocional. Ao seu lado, Irandhir Santos constrói um Valério mais contido, cuja ingenuidade calculada sustenta a tensão da história. A química entre os dois é palpável e reforça o jogo de forças que move a trama: ora cúmplices, ora adversários.

A câmera acompanha de perto a transformação desse casal. Em um primeiro momento, os cenários abertos e diálogos com planos mais amplos sugerem estabilidade entre eles. Com o avanço da trama, o enquadramento se fecha sobre os rostos, revelando o desgaste psicológico dos personagens. Um exemplo simbólico dessa construção visual é a cena em que os dois aparecem em lados opostos da escada, indicando a ruptura definitiva.
Fernando Coimbra não busca lições de moral ou análises sociais profundas, mas também não ignora o contexto onde a história se passa. O Rio de Janeiro retratado é caótico e real, funcionando como mais que um cenário: é parte ativa da engrenagem narrativa. Elementos como esoterismo, criminalidade e improvisos de última hora compõem um retrato onde o inesperado é regra.

O diretor escolhe observar, em vez de apontar, e com isso cria um filme que diverte, inquieta e desafia o espectador a acompanhar um jogo de risco em constante transformação. Apesar de tocar em temas como ambição, poder e violência, o longa evita a moralização. O que move a história é a imprevisibilidade dos personagens.

Apesar de não se aprofundar nos aspectos políticos ou sociais do Rio de Janeiro, Os Enforcados utiliza o contexto como pano de fundo para provocar reflexões sobre influência, dissimulação e ambição. A decisão de manter o foco no drama pessoal, e não na análise estrutural do crime organizado, torna o filme mais direto. A máfia do bicho aparece menos como denúncia e mais como espelho de uma elite que vive de aparências e alianças frágeis.
Essa imprevisibilidade da trama é um grande trunfo. A cada decisão, uma nova consequência se impõe. Não há zona de conforto nem para os protagonistas nem para quem assiste. Coimbra escolhe desconstruir a ideia de controle: ninguém está seguro, e qualquer movimento pode ser o último.

O resultado de Os Enforcados é uma espécie de comédia de erros à brasileira, onde o “trambique” ganha contornos quase épicos. O longa não oferece redenção, mas convida o público a rir, refletir e observar o colapso com desconforto e fascínio. Os Enforcados não pretende ser realista, mas também não está distante da realidade. É essa camada ambígua, entre o absurdo e o verossímil, que dá força à história e transforma o longa em uma tragicomédia de erros deliciosa de assistir.

