Crítica

[Crítica] Nosferatu (2024)

Nosferatu é um remake do filme mudo de mesmo nome, feito em 1922. O filme entra para a excelente filmografia do diretor Robert Eggers, que já dirigiu anteriormente A Bruxa (2015), O Farol (2019) e O Homem do Norte (2022). Agora, o diretor criou o remake deste conto de obsessão romântica e gótica.

O filme Nosferatu (1922) é uma adaptação não autorizada de Drácula, de Bram Stoker, livro de 1897. O filme virou um símbolo do expressionismo alemão. Stoker faleceu em 1912 mas sua viúva se recusou a vender os direitos do romance. Por isso, o nome foi mudado para Nosferatu e o vampiro recebeu o nome de Conde Orlock. Ainda assim, a viúva de Stoker descobriu sobre o filme durante a estreia em Berlim, em 1922, e entrou com ação sobre violação de direitos autorais. Ela exigiu que todas as cópias do filme fossem destruídas. Durante o processo, a produtora Prana Film declarou falência e fechou as portas. A viúva de Stoker venceu o caso em 1925 e foi ordenado que os negativos do filme fossem enviados a ela e destruídos. Mas algumas cópias sobreviveram e chegaram aos Estados Unidos no final dos anos 1920. O livro já era de domínio público nos Estados Unidos e podia ser reproduzido gratuitamente. Ao sair da Alemanha e chegar aos EUA, o material não precisou ser destruído e começou a poder ser exibido sem restrições. Hoje, é um dos filmes mais importantes e emblemáticos da história do cinema.

Nosferatu (2024)

Desde então, a obra faz parte do imaginário popular e agora recebeu mais uma versão cinematográfica, em 2024. O filme se passa em uma cidade costeira da Alemanha, Wisborg, em 1838. Na história, Ellen (Lily-Rose Depp) é a esposa de Thomas Hutter (Nicholas Hoult), corretor imobiliário empregado por Herr Knock (Simon McBurney). Alguns anos antes, Ellen tem um tipo de conexão e se compromete com uma entidade, que não vemos nada além da silhueta por alguns segundos. Ellen sempre implorou por afeto de qualquer forma e agora é casada com um homem bom e ingênuo, mas a promessa que ela fez anos antes começam a assombrá-la em pesadelos após seu casamento com Thomas.

Herr Knock afirma que Thomas precisa viajar para longe, aos Montes Cárpatos, para negociar a venda de um castelo com o conde Orlok (Bill Skarsgard). Ele deve fechar essa venda para conseguir a promoção que deseja. Ellen não tem um bom pressentimento sobre essa viagem e alerta o marido, mas ele vai mesmo assim. Friedrick Harding (Aaron Taylor-Johnson) e sua esposa Anna (Emma Corrin), melhor amiga de Ellen, a acolhem quando o seu marido viaja. O casal tem duas crianças pequenas, que sentem o mal rondando o lugar. Quando Thomas chega ao castelo de Orlok, o vampiro percebe que Ellen é a sua esposa. A partir daí, sua sede de sangue e obsessão por Ellen é liberada.

Nosferatu (2024)

O início do filme é mais lento. Mas, após o seu início, consegue explorar a sedução do sobrenatural e o estado mental cada vez mais degradante de Ellen. As atuações no filme estão fantásticas. Lily-Rose Depp é a alma do projeto e responsável por algumas das cenas mais interessantes. Ela é o centro de tudo e traz uma performance muito física. Skarsgård “some” ao interpretar Orlok. Durante algum tempo, cheguei a esquecer que era o ator que interpretava o vilão. O ator está completamente transformado e irreconhecível no filme. A maquiagem, claro, ajuda. Mas sua voz também é muito impactante. O seu conde Orlok é misterioso e aterrorizante. Willem Dafoe rouba a cena sempre que aparece, como sempre.

Também como sempre, Eggers consegue criar uma atmosfera única do início ao fim do filme. Ao longo das mais de 2 horas de duração, ficamos imersos em um mundo de pesadelo gótico, sombrio e tenso, com a sensação de que cada detalhe foi inserido ali meticulosamente. O design de produção é requintado e o filme é sinistro e macabro, ao mesmo tempo que também tem um tom sensual, grotesco e sedutor. A histeria, que é associada a Ellen no início do filme, acaba abrangendo, aos poucos, todos os personagens, à medida que as ruas da cidade ficam infestadas de ratos e a peste assola.

Nosferatu (2024)

Ellen é a força motriz do filme e sua espécie de romance distorcido com o Conde Orlok cria um conto assustador e angustiante. O filme trata sobre as restrições da sociedade à autonomia das mulheres sobre seus próprios corpos, algo que pode ser traduzido para os dias atuais, e aborda a repressão às mulheres naquela época. O filme trata sobre a temática do vampiro e também sobre erotismo, já que os dois tópicos andam de mãos dadas muitas vezes no imaginário popular. O conto gótico mostra a trajetória melancólica e trágica de uma mulher que tem desejos e que alcança uma espécie de liberdade fatal ao sucumbir a eles.

Nosferatu é uma ótima obra gótica e se justifica como remake ao trazer uma nova abordagem para a história. O vínculo entre Ellen e Orlok é fortalecido com tons de erotismo e possessão. O visual de Nosferatu é espetacular e a atmosfera tensa e assustadora é palpável do início ao fim. O elenco traz atuações fortes e o filme é um dos melhores do ano.