Crítica

[Crítica] Thelma (2017)

Thelma, filme do diretor e roteirista Joachim Trier e do roteirista Eskil Vogt, não se encaixa em apenas um gênero. O longa tem traços de drama, sobrenatural, horror, thriller, ficção científica… O filme foi o escolhido da Noruega para concorrer na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar de 2018. No longa, uma jovem se muda para Oslo para cursar a faculdade de Biologia, longe dos pais. A sua família é fundamentalista religiosa, superprotetora e exerce muita pressão (e opressão) em sua vida.

A primeira cena do filme é forte. Sem contexto prévio, vemos um pai e sua filha criança andando pelo inverno da Noruega. Ao verem um cervo, o pai mira sua arma para o animal. Depois, vai apontando a arma para a sua filha, que não percebe o que está aparentemente prestes a acontecer. Depois, já vemos a história anos depois, quando Thelma (Eili Harboe) vai à Oslo para iniciar a faculdade. No meio do filme, algumas peças vão se encaixando e podemos conhecer mais sobre a história dessa personagem, sua infância e relação com seus pais durante seus primeiros anos de vida. Já na faculdade, a protagonista se vê apaixonada por Anja (Okay Kaya). Toda a sua criação a faz ver essa paixão como algo errado e isso contribui para que ela entre em conflito consigo mesma.

Thelma (2017)

Com o passar do filme, podemos perceber que Thelma tem poderes telecinéticos – e é aí que os elementos sobrenaturais e de horror do filme entram em cena. Thelma é um filme silencioso, quieto, lento, com muitas imagens bonitas e melancólicas, atuações sutis e poderosas, que cresce de maneira singela, cheio de metáforas e evoca muitos sentimentos e sensações. O filme trata sobre o crescimento da protagonista – com toda beleza e dificuldade disso -, sua independência e autoconhecimento.

Em meio a telefonemas passivo-agressivos de seus pais e a crescente paixão por Anja, Thelma tem um aparente ataque epiléptico que coincide com pássaros batendo contra as janelas da biblioteca da faculdade. O episódio se repete algumas vezes, até que a protagonista se consulta com médicos para analisar sua condição e passa a descobrir segredos da história de sua família e a conhecer mais sobre si própria.

Thelma (2017)

Apesar da sinopse poder fazer parecer que se trata de uma história de origem de um super-herói, o filme Thelma está mais conectado – e interessado – com as emoções e consequências humanas de seus sentimentos e atitudes. É sobre se sentir oprimida mesmo com a distância física de seus pais, que se fazem presentes e vigilantes sempre que podem, e sobre o terror de não entender o que está acontecendo em seu corpo, cérebro e coração. Há uma sequência de sonho com uma cobra, como um simbolismo direto à imagem do pecado, em que ela primeiro é enforcada e depois engole o animal.

Thelma (2017)

Uma das cenas mais poderosas do filme acontece quando a mãe de Anja, Vilde (Vanessa Borgli), leva a filha e Thelma para o teatro, para assistir a um espetáculo de balé. O diretor consegue transmitir toda a emoção avassaladora sentida pela protagonista quando Anja segura a sua mão no escuro e começa a acariciá-la; quando Anja toca a sua mão, é como se um raio passasse por ela e tudo em volta estremecesse. Outro ponto alto do filme é a performance da protagonista Eili Harboe, que mostra uma personagem vulnerável e forte, e consegue nos transmitir os mais diversos sentimentos de forma sutil e clara.

Thelma também mostra o terror das pessoas ao se depararem com uma mulher forte e autoconsciente. Podemos entender os poderes sobrenaturais da protagonista como uma simbologia para a sua força, que aumenta cada vez mais que ela se torna consciente de si própria, e o esforço dos seus pais para que seus poderes (ou força) continuem adormecidos, com suas atitudes para impedir a filha de ser independente e viver com total controle de seus desejos. O filme mostra que seus pais não estão preparados para vê-la realizada e poderosa, com total controle de seus poderes como mulher.

Thelma é uma mulher poderosa, uma vilã com atitudes condenáveis ou uma vítima de forças sobrenaturais? Ou uma combinação dessas três coisas? O filme não pretende responder essa questão, e não traz conclusões morais ou fáceis – falo isso como um elogio. Após o filme chegar ao fim, fica para nós a tarefa de refletir sobre nossas escolhas e os impactos que elas têm tanto nas nossas vidas quanto nas vidas das pessoas ao nosso redor. Thelma é um filme sobre libertação feminina.