[Crítica – Mostra SP 2020] O Problema de Nascer (2020)

O Problema de Nascer foi exibido no Festival de Berlim de 2020 e causou polêmica. Antes mesmo do filme chegar ao fim, várias pessoas se retiraram a sessão em sua première. O filme conta a história de Elli, uma robô que vive com um homem para substituir sua filha de dez anos que desapareceu há uma década.

O que fez com que muitos abandonassem a sessão, e que dá muita agonia de assistir, é que o homem vive meio que um “relacionamento” com a robô que substitui sua filha de dez anos. Toda a primeira parte do filme foca na vida tediosa da robô e cotidiano com o “pai”. No início, nada parece anormal. Até que, aos poucos e sutilmente, a diretora Sandra Wollner, em seu segundo longa, começa a nos mostrar cenas e enquadramentos mais estranhos, sugerindo o que de fato acontece ali. Como quando o “pai” tira a língua e a vagina da robô-criança para lavar.

Tudo é contado de forma sutil, sem nada explícito, mas mesmo assim consegue chocar e incomodar. Os enquadramentos apenas sugerem o que está acontecendo, mas não deixa dúvidas e é assustador de ver. Em dado momento, a androide percebe que é apenas uma substituta e nunca será igual ou terá o mesmo peso daquela que substitui. E vai embora.

A partir daí, um homem a rouba no meio da estrada e a leva para morar com sua mãe, uma idosa que teve o irmão morto há gerações. E, dessa vez, a androide deixa de viver como a filha de 10 anos daquele pai, e sim como o irmão da idosa. Mas a memória da androide começa a dar defeito e mistura suas memórias com as do “pai” do início do filme. A idosa percebe que algo não está certo com a androide.

Diferente de filmes que nos mostram robôs cheios de atitudes e vontades, prestes a se revolucionar, O Problema de Nascer nos mostra Elli sem questionar e apenas fazendo o que está em sua programação. A primeira parte do filme nos causa asco, é bem desconcertante e pode nos levar a refletir sobre os assuntos abordados. Sem existir exatamente uma romantização, tudo ali é mostrado com total naturalidade. E faz sentido, já que a história é contada a partir da androide e ela está ali simplesmente cumprindo funções.

Mas O Problema de Nascer acaba perdendo o ritmo, o tom e a força nas partes seguintes e termina sem impacto. Se o começo conseguiu me deixar tensa a todo instante, no final, o longa acaba com a sensação de que não explorou tudo o que poderia. É um filme bem original, sem dúvidas, mas não profundo o suficiente.

O Problema de Nascer faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 22 de outubro e 4 de novembro em formato online

Vencedor do Prêmio Especial do Júri da seção Encontros no Festival de Berlim. Também foi exibido no Festival de San Sebastián.

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