[Crítica] Greta (2019) – Festival Sesc Melhores Filmes 2020

O filme Greta, de Armando Praça, nos conta a história do enfermeiro Pedro, interpretado pelo ótimo Marco Nanini. Pedro é enfermeiro de um hospital público de Fortaleza (Ceará), gay, tem 70 anos e é fã de Greta Garbo.

Pedro é um personagem que nem sempre é apresentado ao público em filmes. Adicionado à idade e orientação sexual, Pedro é solitário, frágil e melancólico. Sua melhor amiga Daniela (Denise Weinberg), uma mulher trans, tem um problema de saúde grave e precisa ser internada.

Então vamos à premissa do filme. O hospital público está lotado, Pedro dá alta a um paciente para ter uma maca livre. Mas esse paciente é da ala masculina. Daniela, mulher trans, não aceita ser internada entre os homens. Enquanto Pedro argumenta que ela deve ficar na maca até uma vaga na ala feminina ser liberada, o assassino Jean (Démick Lopes) entra no hospital e pega a maca livre. Para ter a maca livre novamente, Pedro ajuda Jean a sair do local; como Jean está ferido, Pedro esconde o assassino em sua casa. E assim começa o enredo central do filme.

Pedro e Jean vivem um romance e o filme mostra toda essa história com muita sensibilidade e sempre com um tom triste. Tanto Marco Nanini quanto Démick Lopes conseguem transmitir bem a crescente do relacionamento entre seus personagens, que começa com um pé atrás e vai se firmando ao longo do tempo. Apesar de parecerem diferentes, os dois possuem muitos pontos em comum.

Greta foi baseado em uma peça de teatro da década de 1970 (“Greta Garbo, Quem Diria, Foi Parar no Irajá”), do dramaturgo Fernando Melo, com o toque de pornochanchada comum à época. Um dos acertos do filme é adicionar a sensibilidade e o tom dramático, dando voz e espaço a essas pessoas marginalizadas da sociedade. Como é iniciar um romance na terceira idade? Como é a relação de indivíduos da terceira idade com os demais? Como é a solidão nesse contexto?

“Quando vi uma montagem da peça, não me senti confortável em ver as pessoas rindo. Achei que isso estava mal colocado na leitura atual. Para mim era importante a gente olhar os personagens com empatia, solidariedade e retratar uma vida vivida com dignidade”, disse o diretor Armando Praça ao falar sobre a peça em que se baseou para criar o filme.

O principal acerto do filme é, sem dúvidas, dar espaço para a discussão de assuntos como desejo, sexualidade, amor e medos na terceira idade. Daniela, única amiga de Pedro, quer que ele aprenda a ser sozinho, principalmente por causa de sua grave doença. E Pedro repete para si mesmo, sobre sua ídola: “Greta Garbo podia ter qualquer um, mas tudo que ela queria era ficar sozinha”. Sua admiração e projeção pela estrela de Hollywood vai além e é levada à cama.

Com uma dependência em cuidar do próximo, Pedro nos mostra durante todo o longa olhares vazios (e também apaixonados). Marco Nanini está incrível e nos mostra um personagem comedido, mas cheio de nuances em seus detalhes. Até mesmo a escolha da câmera, geralmente distante dos personagens, ajuda a criar a sensação de vazio e melancolia.

O personagem principal é Pedro, mas ainda assim fica a sensação de que Daniela e Jean poderiam ser melhor desenvolvidos e também terem ganhado mais nuances.

Greta é um filme que deixa uma sensação agridoce ao acabar. Desejo e solidão andando lado a lado. Não é de todo triste. Não é feliz. Como geralmente a vida é.

Greta foi exibido no Festival de Berlim e ganhou o prêmio de melhor longa no Cine Ceará. Em 2019, a Ancine retirou o apoio financeiro ao filme. Em 2020, Greta fez parte da programação do 46º Festival Sesc Melhores Filmes

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