[Crítica] 365 Dias (2020)

Antes de qualquer coisa, 365 Dias romantiza assédio, abuso e síndrome de Estocolmo. Merece qualquer nota além de 0 estrelas? Não. Simplesmente não. É o primeiro zero estrelas do Minuto POP. E espero que não haja um filme tão sem sentido e tão nojento para que isso se repita.

Quando vi que 361 Dias estava no posto de filme mais assistido do Brasil na Netflix, decidi que iria embarcar nessa ~aventura~. Uma vez dentro, vamos escrever aqui as minhas impressões. Valeu a pena? Não. Vou recomendar para alguém? Não. Vai ressoar em mim nos próximos dias? Enquanto escrevo esse texto, vai, vai ressoar mal. Depois, não.

No dia em que escrevo essa crítica, 365 Dias é o filme mais popular da Netflix. Provavelmente porque, pelo boca a boca, foi vendido como um “Cinquenta Tons de Cinza sem censura” ou algo do tipo. Imagino que isso é o que faz o filme atingir a popularidade que atingiu.

Vamos, primeiramente, ao lado técnico. O filme é, na maior parte, mal filmado. Se ninguém avisar, você acreditaria estar vendo a uma novela de baixo orçamento de décadas atrás. As atuações? Piores ainda. Óbvias. Canastronas. O ator principal faz caras e bocas durante todo o filme – principalmente nas cenas de sexo – que poderiam ser tiradas do filme pornô mais clichê. Canastrão.

Os problemas de 365 Dias já aparecem na sinopse. Eis a sinopse: “Uma executiva de espírito livre vive um relacionamento sem graça até se tornar refém de um chefe da máfia, que estabelece um prazo para que ela se apaixone por ele”. Gente? Dá para problematizar e se revoltar com cada frase dessa sinopse?

Vamos à premissa. É mais picante que Cinquenta Tons de Cinza? Sim. Motivo? O filme mostra uma mulher sequestrada e quer nos enfiar goela abaixo que ela foi sequestrada por um bonitão (que na real é um obcecado) que tem um quadro gigante dela no meio da sala mas que, não, ele não é louco, ele tem um bom coração e só quer amar e ser amado.

Percebeu que, em alguns momentos, ela se mostra assustada? Na verdade isso é o início do romance. O personagem principal se mostra totalmente obcecado e psicótico com a falta de afeto dela e o filme nos mostra que isso é porque “não sabemos que na verdade ele é um bom rapaz”.

É? O personagem passa tempos obcecando por uma mulher, a ponto de ter um quadro dela no meio da sala, sequestra essa mulher. Ponto final. Não vamos romantizar, não vamos usar outra palavra. É um sequestro. O argumento deveria terminar aqui, não é? Mas não. Ele sequestra a mulher e, muito “bonzinho” (NÃO!), diz que vai fazer a bondade (NÃO!) de oferecer a ela o período de um ano para que ela se apaixone por ele (???). Gente?

Massimo sequestra Laura, mantém Laura em cativeiro e avisa que isso acontecerá por, pelo menos, um ano. Esse é o enredo do filme. Massimo sequestra Laura, a coloca em cárcere privado e avisa que ela tem 365 dias para ver como ele é um amor, aprender a amá-lo e se apaixonar por ele. Seria um ótimo filme para falar sobre síndrome de Estocolmo, não é? Sim. Mas o filme romantiza isso tudo.

Vamos recapitular. O filme tem uma sinopse que não faz sentido, atuações canastronas, situações criminosas sendo romantizadas. O filme parece ter criado um roteiro que dizia: “Mulher é sequestrada – Mulher confusa – Mulher seduzindo – Mulher apaixonada”. Pegou essas cenas, colocou em ordem e pronto. Não há qualquer preocupação e cuidado com cada cena, não há preocupação com cada cena, que, quando de sexo, parecem um pornô clichê e de baixo orçamento.

As atuações. Como disse, poderiam ter sido tiradas do novelão mais clichê e mais caricato de alguma paródia que você viu. Anna Maria Sieklucka interpreta uma personagem que não sabemos se é alguém em puro conflito ou alguém totalmente refém daquela situação criminosa e abusiva. Bem, mesmo em conflito, ela seria alguém refém daquele contexto criminoso, então… Michele Morrone? O Cigano Igor da Polônia.

Os diálogos são risíveis. O criminoso-sequestrador protagonista a todo momento nos mostra como é um macho alfa. Tá, gente? Atenção! Ele é o machão! Ele sequestra uma mulher e dá o prazo de um ano para ela se apaixonar! Atenção!

Talvez toda a popularidade de 365 Dias se deva às cenas de sexo, apesar de toda a história nojenta, problemática e romantizando um criminoso. Antes de escrever sobre, fui tentar entender nas redes sociais o motivo da popularidade do filme. Me parece que o grande apelo do filme, para quem gostou (Gente?), é achar que as cenas de sexo são tão críveis que nem parece que os atores estavam atuando.

365 Dias é baseado no livro homônimo de Blanka Lipinska; a autora participa do filme como a noiva do casamento. Não sei como é o livro, não dá para imaginar que seria muito diferente, mas o filme romantiza síndrome de Estocolmo, assédio e abuso e se sustenta em cenas de sexo que supostamente parecem ser muito realistas. Merece ser assistido? Não. Filme malfeito, cafona, brega e problemático.

Cinquenta Tons de Cinza é um Crepúsculo para maiores, dizem. 365 Dias é um Cinquenta Tons de Cinza para maiores, dizem. Gente? Pelo amor de Deus. Vamos parar de enaltecer um filme que literalmente romantiza um bando de coisas ruins, doentis e criminosas, por favor? Em tempo: Síndrome de Estocolmo é o nome que se dá à situação em que a pessoa sequestrada se apaixona pelo sequestrador.

Era para o filme ser uma crítica a relacionamentos abusivos? Crítica a sequestros? Crítica a relacionamentos tóxicos? Bom, se essa era a intenção, foi mal sucedida. O filme nos mostra um sequestrador muito rico que pode nos fazer viajar pelo mundo. E também pode sair com a gente para comprar o que quiser em qualquer loja. É isso? A conclusão do filme é essa? A mensagem do filme é ser comprada? Fui longe demais? Então, qual é a mensagem do filme?

365 Dias parece, sinceramente, uma piada. De muito mal gosto. O que esse filme ensina? Ele nos mostra que, aparentemente, mulheres gostam – e consomem – filmes com pegadas mais eróticas, não é? Que tal, da próxima vez, aproveitar esse suposto público-alvo para oferecer algo que não esteja romantizando o abuso, o sequestro, o cárcere privado, Netflix? É para uma mulher ser sequestrada, descobrir que existe alguém obcecado por você e, no fim, achar que ele era um romântico incompreendido?

365 Dias é puro suco de romantização de sequestro, abuso, violência sexual, relacionamento tóxico e síndrome de Estocolmo. Sim, isso é algo a ser repetido em cada parágrafo. E vamos repetir: discurso perigoso, premissa perigosa, atuações péssimas e caricatas, roteiro ruim, não envolve, não progride, não é um romance, muito menos é uma denúncia. Não funciona em nenhum nível.

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