[Crítica] Razão e Sensibilidade (2026)
A nova versão de Razão e Sensibilidade, dirigida por Georgia Oakley, encontra sua maior força na maneira como apresenta a relação entre Elinor e Marianne Dashwood. Embora os conflitos amorosos continuem importantes, são as diferenças de personalidade e a intimidade entre as irmãs que sustentam emocionalmente o filme.
Daisy Edgar-Jones interpreta Elinor, uma jovem acostumada a controlar os próprios sentimentos e a respeitar as exigências sociais, enquanto Esmé Creed-Miles vive Marianne, que enfrenta o amor com intensidade e pouca disposição para esconder o que sente. O contraste entre as duas ganha profundidade graças às atuações e à maneira como a adaptação explora o afeto que permanece entre elas, mesmo diante de suas discordâncias.

Mesmo depois de tantas adaptações para o cinema e a televisão, Razão e Sensibilidade mostra que ainda existem diferentes maneiras de explorar a obra de Jane Austen. Publicado originalmente em 1811, o romance ocupa lugar de destaque na bibliografia da escritora e já inspirou várias releituras. A versão de 2026 encontra sua identidade ao privilegiar os conflitos individuais de seus personagens, sem deixar de lado o romantismo e a atenção às relações humanas que caracterizam a história.
A narrativa começa com uma transformação radical na situação da família Dashwood. Após a morte do patriarca, sua segunda esposa, interpretada por Caitríona Balfe, e as três filhas precisam enfrentar dificuldades financeiras e a perda da estabilidade que conheciam. Enquanto procuram outro lugar para viver, Elinor, Marianne e Margaret, interpretada por Bodhi Rae Breathnach, precisam se adaptar às novas circunstâncias.

A interação de Daisy Edgar-Jones com Esmé Creed-Miles transmite a complexidade da relação entre as irmãs, enquanto os encontros com George MacKay desenvolvem uma atração romântica construída sobretudo pela sutileza. Os personagens masculinos também recebem atenção, com espaço para suas contradições, limitações e características menos admiráveis. Entretanto, nem todos os romances apresentam a mesma força na tela. A aproximação entre Marianne e Willoughby, apesar de mais impulsiva, parece menos convincente do que a relação construída entre Elinor e Edward.
Outro diferencial da produção está no tratamento visual escolhido por Oakley. Em vez de limitar a história à elegância dos ambientes dos dramas de época, a diretora explora o contato das personagens com a natureza. As irmãs atravessam campos e florestas, enfrentam a vegetação que se prende às roupas e aparecem com os cabelos desalinhados. Essa abordagem dá ao longa um aspecto menos idealizado, com cenários naturais e uma atmosfera mais sombria. Ao explorar as dificuldades enfrentadas por jovens mulheres que tentam conciliar seus próprios desejos com as expectativas da sociedade, a produção recupera questões que continuam relevantes fora do contexto histórico do romance.

Oakley não realiza um filme revolucionário, mas também não apresenta uma versão incapaz de justificar sua existência. Sua contribuição está na sensibilidade com que observa as protagonistas e na maneira como aproxima o público de suas experiências. Ao privilegiar a convivência familiar e apresentar uma Inglaterra menos idealizada, a cineasta encontra elementos suficientes para dar identidade própria a uma narrativa já tantas vezes revisitada.
Com boas atuações, imagens expressivas e uma abordagem que dá às relações familiares tanta importância quanto aos romances, Razão e Sensibilidade se mostra uma adaptação forte da literatura de Jane Austen. Sua maior qualidade está em reconhecer que, por trás das dificuldades financeiras e das desilusões sentimentais, existe uma história de amor entre mulheres de uma mesma família.
