Crítica

[Crítica] A Odisseia (2026)

Não sou fã de Christopher Nolan. Muito pelo contrário: geralmente tenho preguiça de sequer começar assistir aos seus filmes. Minha única expectativa para esse era de que eu teria que me esforçar muito para aguentar as quase 3 horas de duração do filme e que sairia com opinião negativa. Mas eu estava totalmente enganada, e que bom! Durante suas 2 horas e 52 minutos, o filme manteve minha atenção inteiramente presa à tela, sem permitir sequer um instante de dispersão. 

Muitas produções recebem o rótulo de épico apenas por apresentarem grandes cenários, elencos numerosos ou uma duração extensa. No caso de A Odisseia, porém, essa definição se aplica em todos os sentidos. A escala da aventura, o domínio técnico, a força dramática e a ambição artística se combinam em um filme que corresponde plenamente à grandeza anunciada pelo título.

A Odisseia

Atribuída a Homero e situada por volta do século VIII a.C., A Odisseia permanece entre as obras literárias mais influentes da nossa história. Sua permanência ao longo dos séculos não depende apenas da importância histórica. A narrativa continua sendo adaptada, encenada, lida e reinterpretada porque reúne temas que atravessam épocas: glória, arrogância, destino, tragédia, vingança divina, honra, desejo, sexualidade e mitologia.

Além de dirigir, Christopher Nolan adaptou para o cinema o poema clássico de Homero, construindo um universo povoado por homens, divindades, criaturas fantásticas e perigos desconhecidos. Sob toda essa camada mitológica, existe a trajetória profundamente humana de um protagonista imperfeito. A jornada de Odisseu aborda culpa, trauma de guerra, escolhas moralmente questionáveis e o desejo persistente de reencontrar o próprio lar. Embora situada em um passado remoto, a história trabalha conflitos que continuam reconhecíveis em qualquer época.

A Odisseia

Matt Damon assume o papel de Odisseu, enquanto Tom Holland interpreta Telêmaco e Anne Hathaway vive Penélope. O numeroso elenco ainda reúne Robert Pattinson como Antínoo, Lupita Nyong’o nos papéis de Helena de Troia e Clitemnestra, Samantha Morton como Circe, John Leguizamo como Eumeu, Zendaya como Atena, Charlize Theron como Calipso, Jon Bernthal como Menelau, Himesh Patel como Euríloco, Bill Irwin como o ciclope, Elliot Page como Sinon, Benny Safdie como Agamenon, Corey Hawkins como Pólibo e Mia Goth como Melanto.

Matt Damon entrega o trabalho mais marcante do conjunto. Seu Odisseu combina autoridade, desgaste e vulnerabilidade emocional de maneira convincente, em uma atuação suficientemente forte para gerar discussões sobre uma possível presença na temporada de premiações. É um desempenho que reforça a dimensão dele como ator.

A Odisseia

Anne Hathaway funciona como o centro emocional da narrativa. Penélope exige equilíbrio entre dignidade, sofrimento e sensibilidade, e a atriz transita entre esses estados de forma natural. Sua interpretação é marcada pela contenção e pela dor. Penélope não é apenas a esposa dedicada que aguarda o retorno do herói. Ela também precisa defender a casa, preservar a herança do filho e enfrentar diariamente homens que se aproveitam de sua hospitalidade. A força com que resiste convive com o medo de que Odisseu esteja morto.

Robert Pattinson torna Antínoo extremamente fácil de detestar. Covarde, arrogante e oportunista, o pretendente de Penélope ganha no ator uma presença desagradável. Uma das melhores atuações do filme. Tom Holland, por outro lado, entrega um Telêmaco que funciona, mas o personagem poderia ter recebido maior profundidade. Não chega a atrapalhar a experiência de assistir ao filme, mas é um de seus pontos fracos.

A Odisseia

A passagem pela ilha de Circe oferece um dos exemplos mais impressionantes. Interpretada por Samantha Morton, a feiticeira transforma os marinheiros em porcos diante da câmera. A metamorfose acontece com uma clareza assustadora. Toda a sequência da atriz é uma das mais fortes e perturbadoras do filme. A minha atuação preferida do filme.

A Odisseia

A premissa de A Odisseia poderia ser resumida facilmente: um homem tenta voltar para casa. Mas o filme examina tragédia, relações sociais, drama familiar e, principalmente, as consequências produzidas pelas decisões de um único indivíduo. Os atos de Odisseu não afetam apenas sua trajetória pessoal; eles se espalham e criam repercussões muito maiores ao redor dele. Os flashbacks revelam gradualmente o caminho que o levou à situação atual e ajudam a reconstruir tanto sua história quanto as razões para seus conflitos.

Penélope tenta preservar o reino enquanto espera pelo marido. Ao seu lado está Telêmaco que cresceu praticamente sem conhecer o pai. Em torno da rainha, acumulam-se pretendentes interessados em ocupar tanto o lugar de Odisseu quanto seu trono. Um dos princípios centrais dessa sociedade é a chamada lei de Zeus, segundo a qual desconhecidos e visitantes devem ser recebidos com hospitalidade. A narrativa passa a explorar o que acontece quando esse código moral é violado.

A Odisseia

Depois de dez anos de guerra, morte e destruição em Troia, Odisseu precisa conviver com aquilo que fez e testemunhou. Seu retorno a Ítaca não é apenas uma travessia física. Ele carrega traumas, perdas e culpa, enquanto tenta encontrar novamente o caminho para Penélope.

Ao lado de seus homens, enfrenta tempestades, criaturas mitológicas, forças divinas e uma crescente insatisfação dentro da própria tripulação. Visões de Atena surgem ao longo do percurso, enquanto sua determinação de voltar para casa o leva repetidamente a desafiar os limites impostos pelos deuses.

A Odisseia

No filme, os ambientes parecem reais, e a imagem transmite uma força visceral que torna o espectador parte daquela jornada. Ao mesmo tempo, o compromisso com o realismo nunca elimina completamente a natureza fantástica da história. O mundo permanece suficientemente estranho, místico e sobrenatural para que a mitologia continue presente.

O começo também exige certa paciência. O filme demora aproximadamente meia hora para encontrar seu ritmo mais forte, mas, a partir daí, ganha impulso e praticamente não perde intensidade. A duração de 173 minutos é longa, mas o ritmo não é um problema. Pelo contrário, depois de engatar, o tempo passa com naturalidade e a narrativa mantém o interesse durante todo o tempo. Quando o filme chegou ao fim, não senti que havia permanecido tempo demais naquele universo. O filme não transmite sensação de excesso narrativo.

A Odisseia

Rodado em locações ao redor do Mediterrâneo, no Marrocos e na Islândia, o filme faz com que a aparência dos lugares e a organização dos acontecimentos acompanhem o caminho tortuoso percorrido pelo protagonista. Depois de participar da destruição de Troia e contribuir decisivamente para a vitória grega, Odisseu passa dez anos tentando regressar a Ítaca.

A suposta vitória, porém, logo se torna questionável. É possível considerar uma guerra vencida quando os combatentes não conseguem voltar para casa? A tradição mitológica frequentemente apresenta Odisseu como uma figura quase divina, mas o personagem também pode ser visto como mentiroso, manipulador, trapaceiro.

A Odisseia

James Joyce descreveu Odisseu como o homem mais completo da literatura, alguém que reúne simultaneamente os papéis de pai, filho, marido, amante, companheiro de batalha e vingador. A atuação de Matt Damon contempla todas essas dimensões.

As lembranças da Guerra de Troia estão entre as passagens mais intensas do filme. Elas conduzem Odisseu a uma percepção moral que talvez permanecesse apenas implícita no poema, mas que aqui é apresentada abertamente. Responsável pelo plano do cavalo de madeira, ele começa a compreender que sua inteligência e seu talento para a fraude introduziram na humanidade algo mais perigoso do que uma simples técnica para vencer uma batalha. Ele representa uma violação imperdoável da lei de Zeus que determina a hospitalidade aos estrangeiros. Um presente aparentemente sagrado é transformado em esconderijo para uma ameaça. A confiança oferecida por quem recebe o objeto torna-se justamente a condição necessária para sua destruição.

A Odisseia

No conjunto, A Odisseia representa uma realização extraordinária. A combinação entre direção, atuações, fotografia, música, design de produção, efeitos e narrativa funciona com uma unidade rara, resultando em uma experiência que pode ser colocada entre as grandes realizações do cinema de espetáculo.

Os deuses permanecem quase sempre fora de quadro. Com exceção de algumas aparições de Zendaya como Atena, eles raramente assumem forma visível. Ainda assim, sua presença pode ser percebida no clima, nas ondas, nas tempestades e nas desgraças que recaem sobre Odisseu e seus homens.

A Odisseia

Mais do que apenas um filme grandioso, é uma experiência sensorial capaz de recordar por que as salas de cinema continuam sendo o espaço ideal para obras concebidas nessa escala (ainda que o filme seja, por definição, excludente, já que foi filmado em uma tecnologia que não pode ser reproduzida totalmente em nenhuma sala da América Latina, por exemplo).