[Crítica] O Agente Secreto (2025)
Como recifense e pernambucana, sinto um orgulho enorme ao ver O Agente Secreto ganhando projeção internacional. É bonito demais ver um filme que nasce daqui, das nossas ruas, do nosso calor, da nossa história, alcançar tamanha repercussão pelo mundo. E, claro, pra quem é de Pernambuco, isso tem um sabor ainda mais especial: nós temos fama de bairristas, com razão e com orgulho. Afinal, ver Recife retratada nas telas e celebrada lá fora desperta aquele orgulho imediato. Estar na primeira em território nacional do filme, no histórico Cinema São Luiz – com direito aos vitrais se iluminando em sincronia com certeza cena do filme -, com Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura e Maria Fernanda Cândido presentes, foi daqueles momentos em que dá vontade de dizer, com toda a certeza e sem modéstia, que é um privilégio ser daqui.
Depois de obras marcantes como Aquarius (2016), Bacurau (2019) e o documentário Retratos Fantasmas (2023), Kleber Mendonça Filho retorna com força total em O Agente Secreto. O novo filme conquistou os prêmios de Melhor Direção e Melhor Ator no Festival de Cannes, além de ter sido o escolhido para representar o Brasil na corrida pelo Oscar.

Ambientado em 1977, durante um dos períodos mais turbulentos da ditadura militar, o longa acompanha Marcelo (Moura), professor universitário que chega a Recife em plena semana de Carnaval. Ele busca reencontrar o filho e, ao mesmo tempo, escapar de um passado que o persegue.
Na cidade, ele é acolhido por Dona Sebastiana (Tânia Maria, destaque absoluto e ponto alto de cada cena que aparece), uma militante que oferece abrigo temporário enquanto providencia um passaporte falso. Com humor e franqueza, ela se torna o contraponto mais caloroso do filme, e é impossível não ser conquistado por ela.

Outro destaque, claro, é Wagner Moura. Ele sustenta o filme com sua presença magnética. Seu personagem traz a cada cena uma melancolia silenciosa, uma dor contida e humor, mix que o torna fascinante de assistir. É um misto, com precisão, de vulnerabilidade e força, de contenção e intensidade.
Com 158 minutos de duração, o longa se divide em três atos, construídos lentamente como uma espiral de tensão. A narrativa entrelaça várias tramas paralelas e uma galeria de personagens: militantes clandestinos, membros do governo, empresários oportunistas e assassinos de aluguel. Por meio de flashbacks, o público entende como Marcelo chegou àquela situação; e através de flashforwards, acompanhamos um grupo de estudantes pesquisando aquele período sombrio da história brasileira, oferecendo uma leitura mais ampla sobre os efeitos da repressão.

Nos últimos anos, o cinema brasileiro tem revisitado a ditadura sob diferentes perspectivas. Em 2024, por exemplo, Walter Salles conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional com Ainda Estou Aqui, um drama familiar doloroso e emocionalmente intenso. Enquanto o filme de Salles abordava o tema de forma direta e intimista, Mendonça Filho segue outro caminho: em O Agente Secreto, a crítica política se dá de modo mais sutil e simbólico, revelando muito mesmo quando parece não estar falando tanto.

Há uma tensão constante em praticamente todas as cenas de O Agente Secreto. A sensação de ameaça paira no ar como o calor sufocante que domina a história. As ruas estão lotadas de foliões, turistas de países vizinhos e figuras do regime: políticos corruptos, militares e capangas empenhados em eliminar qualquer voz dissidente.

A origem da lenda urbana da “perna cabeluda”, perna que ganha vida e invade um parque, é uma sequência surreal, grotesca e cômica. Ela funciona para mostrar a alegoria do medo, expondo como o regime ditatorial utilizava o terror e o absurdo para controlar comportamentos e sufocar as vozes contrárias.

O filme é tenso, sombrio e inquietante, mas também surpreende com momentos de humor ácido e passagens de fantasia que quebram a linearidade e mantêm o espectador em constante alerta, assim como o protagonista, que tenta sobreviver sem perder a lucidez. Os detalhes de produção – figurinos, cenografia e a fotografia – recriam com impressionante fidelidade a atmosfera dos anos 1970, como se o longa tivesse sido realmente filmado naquela época. A reconstituição de época é impecável.

O desfecho pode soar abrupto após a escalada de tensão do terceiro ato, mas mesmo o final contido tem impacto e contribui para a potência da obra. Ao final, é impossível sair ileso: a sensação de opressão e impotência persiste mesmo após os créditos, lembrando que o terror político de ontem ainda encontra eco no presente.
O Agente Secreto é uma crítica às desigualdades, à corrupção e às arbitrariedades do Estado brasileiro. É uma reflexão sobre a história e o futuro do Brasil e um ato de preservação da memória. No fim, talvez o “agente secreto” do título não seja Marcelo, mas aqueles que preservam a memória, que mantêm registros e vozes vivas para o futuro.

