Crítica

[Crítica] Superman (2025)

Talvez soe ingênuo apelar à nobreza em tempos tão profundamente cínicos e trágicos, mas essa é justamente a aposta de James Gunn em Superman. Aqui, a empatia é mais poderosa do que a capacidade de destruir uma cidade com pura força bruta. A intenção aqui não é apenas devolver o super-herói da DC à sua essência generosa, mas também apresentar ao grande público aspectos do universo de Superman que até agora nunca tinham sido mostrados no cinema.

Superman

A música que toca durante os créditos finais de Superman é “Punkrocker”, da banda sueca Teddybears com participação de Iggy Pop. A escolha musical fecha com chave de ouro uma piada recorrente entre Clark Kent e sua namorada, Lois Lane. Lois insiste que ela é a verdadeira representante do espírito punk por conta de seu ceticismo jornalístico. “Eu questiono tudo e todos”, diz ela a Clark, que, por sua vez, confia “em todo mundo que já conheceu”. A resposta dele? “Talvez isso seja o verdadeiro punk rock.” Essa frase, brega mas sincera, sintetiza tanto o espírito do filme quanto o clima cultural atual, cada vez mais inclinado a abandonar o cinismo em favor da empatia.

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A aparência humana de Kal-El muitas vezes nos faz esquecer que ele é, na verdade, um imigrante: o mais estrangeiro de todos, um verdadeiro “alienígena ilegal”. E Gunn faz questão de colocar esse detalhe em destaque, usando-o como ponto central da trama.

O fato de o filme estrear em um momento em que tantos imigrantes enfrentam perseguições violentas no mundo real adiciona inevitavelmente um subtexto sócio-político amargo (ainda mais evidente nas cenas em que tanques e metralhadoras são apontados para civis com pedras e paus).

Gunn introduz esses temas atuais no universo da DC com habilidade. O filme faz críticas diretas, mas sem forçar a mão, da mesma forma que boas obras de ficção científica e fantasia conseguem comentar o mundo real. Lex Luthor sendo um bilionário careca, com uma namorada superproduzida (Sara Sampaio), viciada em rímel e preenchimentos labiais, pode até lembrar alguém conhecido por aí. Mas o alerta sobre os perigos da concentração extrema de poder e dinheiro (aqui representados por experimentos com o espaço-tempo, e não com a economia) é claro.

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Gunn também aborda temas como cultura do cancelamento: a sequência com robôs híbridos sentados em frente a teclados, “trollando” Superman online, é uma pequena obra de genialidade cômica. Há ainda críticas sutis à obsessão por selfies e ao esvaziamento do conceito de liberdade de expressão, tudo costurado e mostrado de forma sutil.

Desde sua criação, Superman sempre foi uma metáfora da história americana de imigração. Seus criadores, Jerry Siegel e Joe Shuster, eram filhos de imigrantes judeus, e isso está no DNA do personagem. Quem reclama que o filme está “woke demais” por tocar nesse tema claramente não entendeu nada. O filme não é panfletário, mas se conecta com acontecimentos reais. Há, por exemplo, uma cena em que o país militarizado de Boravia invade a pequena Jarhanpur e, como era de se esperar, Superman fica do lado dos oprimidos.

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Superman evita ser mais uma história de origem. A trama começa já em movimento, nos jogando diretamente na ação. E começa, na verdade, de forma bem incomum, logo após a primeira derrota de Superman.

No filme, há vilões e heróis, e é isso. O diretor confia no público. Gunn não sente a necessidade de explicar cada detalhe, cada personagem, cada evento. Assume que sabemos o básico. O diretor também não se interessa em justificar o mal com traumas de infância, nem quer mergulhar o herói numa escuridão interminável. O foco está no agora: o que cada personagem faz com o poder que tem.

O ponto central do conflito é a intervenção de Superman em uma guerra entre dois países fictícios com ares de Leste Europeu ou Oriente Médio. Quando a nação mais poderosa invade sua vizinha sob o pretexto de “libertar” seu povo, Superman decide agir. Isso desperta a atenção do Departamento de Estado, estimulado por Lex Luthor (Nicholas Hoult), que dá início a questionamentos sobre o status migratório do herói.

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A situação piora quando Luthor obtém, direto da Fortaleza da Solidão, um vídeo suspeito dos pais de Superman (interpretados por Bradley Cooper e Angela Sarafyan), que levanta dúvidas sobre as verdadeiras intenções de Kal-El ao vir à Terra — mesmo após anos sendo um símbolo de proteção e bondade em Metrópolis.

David Corenswet precisa de pouquíssimos minutos para conquistar o papel e apresentar sua própria versão do herói, com uma atuação que não tem medo de mostrar vulnerabilidade, especialmente quando Kal-El lida com medos e frustrações. O ator traz ao papel uma normalidade encantadora. Claro, ele voa, tem superforça e dispara raios pelos olhos. Mas também sente dor, chora quando está triste, sorri quando ama, tem insegurança. Ele é um fazendeiro do interior com um cachorro inseparável (o carismático supercão Krypto) e uma mulher por quem é apaixonado.

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Mas o protagonista não é o único acerto do elenco. Nicholas Hoult se diverte ao interpretar um Lex Luthor megalomaníaco, construído como uma paródia sombria de Elon Musk (inclusive com um exército de macacos encarregados de espalhar veneno nas redes sociais). Ele entrega um vilão assustador, manipulador e brilhante, que realmente faz a gente temer pela segurança do herói.

Rachel Brosnahan está impecável e brilha como a destemida repórter Lois Lane. Incansável na busca pela verdade, ela é tão obstinada quanto Superman em defendê-la. E o melhor: não há nenhum momento em que ela precise ser salva por ele. Em alguns pontos, é o contrário que acontece.

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Embora tenha gostado bastante, não acho que Superman seja um filme perfeito. Gunn arrisca bastante, e nem sempre os riscos funcionam. O maior problema é o excesso de conteúdo e um tom que às vezes se perde. Há muita coisa em pouco tempo, e vários personagens disputando espaço.

Alguns personagens, no entanto, não funcionam tão bem – não por causa das atuações, mas por parecerem meio deslocados. De forma geral, os efeitos visuais funcionam bem dentro da proposta do filme; não são espetaculares, mas cumprem o que prometem. Apenas uma cena ou outra destoa mais e podem tirar um pouco da imersão, com um visual mais artificial que o restante.

Ainda assim, os acertos superam as falhas. Os personagens não foram mal escritos, mas dá pra sentir que existe uma versão mais longa desse filme que foi cortada por ritmo. E essa talvez tenha sido a escolha certa, já que o filme tem ritmo impecável.

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Um dos elementos mais marcantes de Superman é como o filme abraça o lado absurdo e fantasioso das histórias em quadrinhos. É um filme para quem quer assistir a uma diversão leve, sem filtros, sem cinismo. Gunn retoma o encantamento, a humanidade e a alegria que foram perdidos no caminho.

Com sua paleta de cores vibrantes (em contraste direto com o noir sombrio de The Batman, de 2022, por exemplo), o uniforme retrô com cueca vermelha à mostra e a dinâmica romântica estilo comédia clássica entre Lois e Clark, Superman é leve, feliz e sem medo de ser bobo.

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Depois de anos de filmes que tentavam colocar super-heróis em contextos hiper-realistas ou em universos narrativos confusos e exaustivos, Gunn opta por uma abordagem mais solta e brincalhona, quase infantil no melhor sentido da palavra. O filme não se leva mais a sério do que deveria.

No fim das contas, Gunn reconhece que acreditar no valor da vida – toda vida – acima de ideologias e interesses pessoais é, nos dias de hoje, uma visão quase punk. E é essa ideia que ele costura ao longo de Superman. É um filme de super-herói criativo e com o coração no lugar certo. Divertido, engraçado, empolgante, romântico, otimista, visualmente marcante e puro entretenimento blockbuster. É um ótimo filme de super-herói.