[Crítica] O Auto da Compadecida 2 (2024)
O Auto da Compadecida é, sem dúvidas, um clássico do cinema brasileiro. Fazer uma sequência do filme, ainda que apenas vinte e cinco anos depois, parece um movimento óbvio – e seguro. Dessa vez, a história não foi escrita por Ariano Suassuna.
O filme mostra o que aconteceu décadas depois da morte e ressurreição de João Grilo (Matheus Nachtergaele). Enquanto ele sai para se aventurar pelo mundo, Chicó (Selton Mello) continua morando em Taperoá. João Grilo retorna para a cidade e, por causa do que aconteceu com ele décadas antes, os moradores de Taperoá veem ele como um milagre, um santo. Todo o “sucesso” dele acaba incomodando o Coronel Ernani (Humberto Martins) e o radialista Arlindo (Eduardo Sterblitch), dois candidatos à prefeitura da cidade.
O roteiro de Guel Arraes e João Falcão apresenta a história agora na década de 1950 e mostra algumas mudanças e modernidades que estão chegando na cidade. A partir deste enredo, acompanhamos as novas aventuras e malandragens de João Grilo e Chicó. O filme segue toda a fórmula do primeiro filme, para o bem e para o mal. Apesar do texto não ser original de Suassuna, o roteiro do filme consegue captar um pouco de sua essência. O filme traz várias situações cômicas entre os dois personagens protagonistas e demais personagens do filme, com diálogos acelerados.

O Auto da Compadecida 2 foi feito com cenários de estúdio e planos fechados. O filme tem um tom muito mais teatral e os cenários de estúdio muitas vezes passam um ar mais claustrofóbico e abafado às cenas. Ao mesmo tempo, o cenário também ajuda a criar um ar de fantasia à história, uma atmosfera mítica. Essa ambientação afasta totalmente a estética de realismo do longa.
O áudio dublado incomoda em algumas cenas. Às vezes fica difícil de acompanhar o som e os diálogos. Em alguns momentos, a história fica confusa e difícil de acompanhar. Ao roteiro, faltou mais ambição e ousadia. A parte final, ainda mais semelhante ao primeiro filme, é o momento em que a sequência mais perde o fôlego. Mesmo tentando acompanhar e emular a alma de Ariano Suassuna no texto, o roteiro do filme poderia tentar inovar e trazer um ar mais criativo ao texto.
O Auto da Compadecida 2 está longe de ser um filme ruim, mas não consegue ultrapassar ou se igualar à obra original. O filme se apoia e depende da obra original, e tenta repetir toda a sua fórmula, sem se permitir tentar ousar. A química entre os dois personagens principais ainda é forte, e eles continuam sendo o coração e alma do filme. Os dois conseguem manter a essência e características de seus personagens no primeiro filme. O elenco traz boas adições, como Fabíula Nascimento, além de ter participação de Virgínia Cavendish, para matarmos a saudade de Rosinha. A caracterização de Taís Araújo está belíssima.

Ainda assim, o longa traz muitos personagens coadjuvantes e muitas histórias que não são tão bem desenvolvidas. Elas poderiam funcionar melhor em uma série, com cada história sendo apresentada e finalizada a cada episódio. Mas todas elas em um único filme acaba deixando a sensação de falta de foco e falta de melhor desenvolvimento. O filme não continua ou desenvolve bem aquela história de 20 anos atrás. É como se terminássemos da forma que começamos.
A direção de Flávia Lacerda e Guel Arraes consegue criar um filme que entrega tudo o que o público pode esperar ver na sequência do clássico. O Auto da Compadecida 2 tem momentos divertidos e momentos emotivos, e serve como uma grande celebração do primeiro filme e pretexto para matar a saudade desses dois personagens icônicos da história do nosso cinema. Não é um filme indispensável, mas consegue divertir. Há pontos positivos, mas também deixa a sensação de que não se aproveitou de seu total potencial.
Como os próprios atores frisaram enquanto promoviam o filme, O Auto da Compadecida 2 “não é uma continuação, é uma celebração”. “Vá com o coração aberto para se divertir. (…) Vai só curtir, só compra a pipoca e vai ter esse prazer de encontrar esses dois de novo”, disse Selton Mello. E é assim que o filme deve que ser encarado. É um filme saudosista, que não precisava existir, mas que existe como uma distração nostálgica, como um pretexto para termos um momento leve e divertido nas salas de cinema. É um filme para matar a saudade. E dá para sentir que o filme foi feito com carinho por toda a equipe.

