[Crítica] A Empregada (2025)
Há mérito no bom e velho filme trash. Não no sentido de “guilty pleasure”, mas sim daquele cinema que assume sem vergonha alguma seu mau gosto, que é assumidamente trash. Filmes que sabem exatamente o quão absurdos são, brincam com isso, não se levam excessivamente a sério e, ainda assim, conseguem ser espertos em meio à própria tolice e absurdo. Assim é A Empregada. Quem estiver em busca de um drama sério, contido e realista talvez deva procurar outra coisa.
A Empregada, novo filme de Paul Feig, escrito por Rebecca Sonnenshine e adaptado do romance homônimo de Freida McFadden, acompanha Millie, interpretada por Sydney Sweeney, uma jovem recém-saída da prisão que consegue trabalho como empregada doméstica na casa de Nina Winchester, uma dona de casa rica e temperamental vivida por Amanda Seyfried. À medida que Nina se torna mais controladora e instável, Millie se aproxima do marido dela, Andrew, interpretado por Brandon Sklenar, relação que acaba trazendo à tona segredos obscuros do passado do casal. A trama é tão clichê quanto essa sinopse denuncia.

Quando o filme busca abordar a violência doméstica de maneira mais direta, fica evidente que ele não possui ferramentas narrativas nem sensibilidade suficientes para lidar com o tema, o que torna esses trechos arrastados e pouco eficazes. Fora isso, porém, Feig entrega um suspense que funciona como aqueles romances baratos que você devora em uma tarde. É um gênero que não depende de personagens profundos, enredos sofisticados ou escrita refinada, mas sim da capacidade de provocar reações físicas no público: choque, riso, desconforto. E, nesse aspecto, o filme cumpre bem sua função.

Do ponto de vista lógico, quase nada do que acontece se sustenta. Aqui, cada acontecimento, por mais absurdo que seja, dá origem a outro ainda mais improvável, e depois a mais um, construindo uma estrutura frágil, como uma torre de peças instáveis que balança o tempo todo, mas não chega a desmoronar por completo.
Há vários momentos em que parece evidente que Millie poderia escapar daquela situação com relativa facilidade. Mesmo sem conhecer o livro original, não é difícil montar rapidamente o quebra-cabeça do que está acontecendo nas entrelinhas. O tom é tão exagerado e sensacionalista que qualquer tentativa de levá-lo a sério se torna impossível. Ainda assim, a execução é tão competente que isso simplesmente deixa de importar.

Mesmo quando a trama recorre a resoluções pouco críveis, isso se torna aceitável porque, a essa altura, A Empregada já mudou completamente de tom. O desfecho assume contornos abertamente fantásticos e sombrios, quase grotescos. Esse é o tipo de obra perfeita para ser assistida em uma sala escura, cercada por desconhecidos, compartilhando reações confusas entre risadas, reclamação de diálogos cafonas e incredulidade.

A Empregada abraça sem pudor o exagero melodramático, entregando exatamente o que o material pede. É uma mistura assumidamente espalhafatosa de violência, sensualidade, manipulação psicológica, discursos de empoderamento feminino e vingança sangrenta, sustentada principalmente pela performance expansiva de Amanda Seyfried, que domina cada cena.

Não há espaço para desenvolvimento lento. Às vezes até falta desenvolvimento. E tudo bem. A trama avança em ritmo acelerado. Como todo bom entretenimento na vibe fast food, o longa não se aprofunda na psicologia de seus personagens, que funcionam mais como engrenagens do que como figuras tridimensionais.

Ainda assim, a quantidade de eventos e o ritmo acelerado impedem qualquer sensação de tédio. O roteiro não dá espaço para respirar. O resultado é uma diversão assumidamente exagerada e consciente de sua própria falta de seriedade, um passatempo que nunca pretende ser levado a sério demais.

A Empregada é um espetáculo deliciosamente trash, cínico e debochado, e mesmo seus elementos menos bem-sucedidos, como todo o arco sem sentido nenhum do personagem Enzo, acabam sendo irrelevantes diante do prazer geral. As atrizes parecem se divertir genuinamente, entregando performances sem qualquer traço de sutileza, como deve ser neste caso. No fim das contas, é difícil não se render e se divertir.
