Crítica

[Crítica] Sorry, Baby (2025)

No longa de estreia de Eva Victor, Sorry, Baby, a cineasta apresenta um retrato delicado e devastador das marcas deixadas por um trauma e do processo irregular de reconstrução pessoal. A narrativa gira em torno de Agnes (interpretada pela própria Victor), uma estudante de pós-graduação cuja rotina é abruptamente desestabilizada após sofrer uma agressão sexual. Em vez de encenar o ataque, Victor concentra a história em tudo o que vem depois, no movimento lento, contraditório e frequentemente doloroso de tentar recuperar a própria identidade ao longo dos anos seguintes.




O roteiro de Victor capta as nuances de viver após um assédio e abuso sexual: o conflito entre o sofrimento interno e a aparência de normalidade, os pequenos rituais de sobrevivência, as mudanças nas relações de amizade e confiança. Questões de poder, gênero e expectativas sociais surgem de maneira discreta ao longo da narrativa.

Sorry, Baby

Sorry, Baby ocupa um espaço entre o drama e a comédia, alternando momentos de humor ácido com uma sinceridade emocional potente. A história evita clichês sobre “superação” e retrata a cura como um caminho complexo, irregular e por vezes frustrante. O filme é um trabalho surpreendentemente maduro e empático sobre amizade, sobre ser mulher e sobre a coragem de continuar aparecendo para si mesma, mesmo quando ninguém ao redor parece saber como ajudar.

O longa se recusa em transformar o trauma em espetáculo. A agressão nunca é mostrada; ela aparece apenas como lembrança implícita, mas o modo como Victor a insinua é perturbador e difícil de esquecer. O foco permanece sempre no impacto psicológico e emocional, e é justamente essa escolha que dá ao filme sua força. Agnes é uma sobrevivente de violência sexual que ainda tenta compreender a dimensão do trauma que sofreu. Após o ataque, ela entra em estado de choque e se fecha completamente.

Sorry, Baby

O trabalho de Eva Victor como protagonista é um dos pontos mais fortes de Sorry, Baby: ela assume um tipo de atuação que transita com naturalidade entre um humor seco e momentos de franqueza emocional. O vínculo de Agnes com sua amiga Lydie é o centro afetivo da história. É essa relação que oferece acolhimento e um espaço seguro para que Agnes possa se apoiar justamente nos momentos mais pesados.

Sorry, Baby

O filme consegue fazer uma transição forte entre uma Agnes que é uma “protegida”e “preferida”do orientador Preston Decker (Louis Cancelmi), a ponto de sua amiga “brincar” que Agnes deveria dormir com ele. As brincadeiras perdem o sentido quando Decker abusa de seu poder e a estupra. A saída da diretora para não mostrar a violência de forma explícita é inteligente, com a câmera filmando apenas o lado de fora da casa do professor, quando Agnes vai até o local, e o dia se transformando em noite, com a personagem saindo envolta de um silêncio perturbador. Mais tarde, ao contar o que aconteceu a Lydie, ela descreve tudo de forma crua e precisa, sem deixar qualquer dúvida sobre os fatos.

Sorry, Baby

Em outra sequência, Agnes encontra uma filhote de gato na rua. Ela reconhece imediatamente no animal uma mistura de fragilidade e força: algo perdido, sozinho, ao mesmo tempo vulnerável e capaz, e carregando uma doçura que parece pedir cuidado. A gatinha ronrona com insistência quando ela o pega no colo. Ela a leva para casa e o batiza de Olga. Há também um momento em que Agnes conversa com duas funcionárias da universidade que, tentando demonstrar solidariedade, afirmam de modo performático: “Sabemos o que você está passando, somos mulheres”… ao mesmo tempo em que deixam claro que nada será feito contra Decker. 

Sorry, Baby

Uma das cenas mais desconfortáveis ocorre quando ela é chamada ao tribunal para possível seleção de júri. Ali, recebe uma explicação sobre “depoimento direto” e precisa responder perguntas feitas diante de outros candidatos, do juiz e até da taquígrafa. Indagam repetidamente se ela já foi vítima de um crime que comprometeria sua imparcialidade, algo que a coloca em uma posição dolorosamente exposta. O desconforto ao assistir essa cena é palpável.




Ela vive presa entre o desejo de se livrar de todas as lembranças e a impossibilidade de realmente se desligar do lugar onde tudo aconteceu. Trabalha na mesma faculdade em que foi abusada, ocupa o antigo cargo de seu agressor e chega a ocupar a sala que já foi dele. Ela também passa por situações dolorosas de revitimização, como quando vai à consulta médica e é atendida por um médico terrível. São microviolências burocráticas, repetidas. Um esvaziamento constante.

Sorry, Baby

Sorry, Baby se insere em um debate urgente sobre como a má conduta sexual opera de forma sistêmica e sobre as barreiras que surgem quando se busca justiça. Apesar do tema indigesto, há esperança e Victor trata o trauma com delicadeza e cuidado. Um destaque é como o longa conduz o humor: uma ironia sutil que, quando rompida pelo sofrimento, deixa tudo mais devastador. Há ecos de I May Destroy You, de Michaela Coel, principalmente no uso desse humor sombrio e na retomada do controle narrativo da própria vida após um estupro. 

Sorry, Baby

O primeiro longa de Eva Victor aponta para um futuro promissor da artista, pois é um trabalho íntimo, espirituoso, afetuoso e transparente. Ao mostrar os vínculos da protagonista com sua amiga Lydie, com seu vizinho Gavin ou com o dono da lanchonete interpretado por John Carroll Lynch, o filme sacramenta essa sensação final de esperança diante de pequenas gentilezas, que não é destruída pelo “Ano da Coisa Ruim”. É passo a passo, no seu ritmo e sem atalhos, que Agnes começa a caminhar e não permitir que o trauma molde o resto da sua vida. 

Sorry, Baby

Ao final, conversando com o bebê de Lydie, ela diz: “Coisas ruins simplesmente acontecem”. É um final íntimo, amargo e real. Embora seja um filme sobre a persistência da dor, ele também insiste na possibilidade da cura, na capacidade humana de continuar criando sentido e ternura mesmo depois de viver algo que poderia ter destruído tudo. Agnes não encontra um desfecho que resolva seu trauma e, no fim, reconhece que talvez nunca encontre. A força de Sorry, Baby está justamente na aceitação dessa ausência de fechamento. Um dos melhores filmes de 2025.