Crítica

[Crítica] Wicked: Parte 2 (2025)

O premiado musical da Broadway retorna ao cinema com a segunda parte de sua história fantástica em Wicked: Parte 2. A nova parte da história mergulha na engrenagem política, nos mecanismos de propaganda e no caminho sinuoso em direção à redenção pessoal. A pergunta central desta segunda parte é o que realmente significa ser “bom”.




A fabricação da heroína e da vilã

Nesta continuação, Elphaba (Cynthia Erivo) surge totalmente difamada como a Bruxa Má do Oeste, vivendo agora em exílio e lutando com todas as forças para libertar os animais silenciados e revelar as manipulações do Mágico. Enquanto isso, Glinda assume o posto de “Bruxa Boa” e se torna um símbolo de conforto para Oz, embora internamente esteja em conflito, sentindo falta de Elphaba, sua melhor amiga, e ciente de que está participando de uma farsa pública.

Glinda, vivida por Ariana Grande, está completamente envolvida pelo novo protagonismo que ganhou. A fama a encanta, e ela acredita ter alcançado tudo que sempre desejou, inclusive a promessa de casamento com o príncipe Fiyero (Jonathan Bailey). Mas essa nova posição começa a revelar um preço alto, especialmente quando confrontada com o destino de sua antiga melhor amiga, Elphaba, e com as mentiras flagrantes disseminadas pelo Mágico e por Madame Morrible.

Wicked: Parte 2 (2025)

Eles passaram a apresentar Elphaba como a Bruxa Má do Oeste e Glinda como Glinda, a Boa. A propaganda do regime espalha medo entre os cidadãos de Oz, alimentando não só o ódio contra Elphaba, mas também campanhas contra os munchkins e contra qualquer criatura animal. Determinada a revelar a verdadeira face do Mágico, Elphaba não mede esforços para expor quem ele realmente é.

A sombra de “Defying Gravity”

Wicked: Parte 2 não repete o impacto de Wicked e não atinge o mesmo patamar do primeiro filme. Mas isso não deve ser surpresa para quem já conhece o musical dos teatros. O segundo ato do musical sempre foi mais curto no palco, e por um motivo claro: é mais sombrio, menos leve e não possui músicas tão populares. No palco, isso também acontece. As melhores canções do musical, como “The Wizard and I”, e os grandes números de elenco, como “Dancing Through Life”, aparecem logo no início. Sem mencionar as famosas e icônicas “Popular” e “Defying Gravity”. A primeira parte tem o clima leve e vibrante de uma história juvenil ambientada em um colégio interno, centrada em uma figura cultural incompreendida que acaba descobrindo o próprio poder.

O segundo ato de Wicked, tanto no teatro quanto no cinema, sempre conviveu com um obstáculo: “Defying Gravity” é, de longe, o número mais forte da história. No palco, o impacto desse clímax é amenizado por um intervalo curto antes da continuação. No cinema, a espera de um ano faz com que a primeira parte termine no ponto mais alto da obra. A segunda metade, mais sombria e intensa, entrega um filme mais denso, já que os personagens deixam de soar tão caricatos.

Wicked: Parte 2 (2025)

As novas canções de Stephen Schwartz, incluindo “No Place Like Home” e “The Girl in the Bubble”, embora boas, não alcançam o mesmo impacto das músicas de Wicked (2024) e são bem menos memoráveis do que as icônicas músicas de O Mágico de Oz (1939). Não há nenhum equivalente a “Somewhere Over the Rainbow” ou “We’re Off to See the Wizard” para acompanhar o público na saída do cinema.

Ainda assim, o coração da narrativa permanece forte, com uma mensagem clara sobre amizade, amor, aceitação e o perigo de confiar em heróis que não são tão heroicos assim. As atuações de Cynthia Erivo e Ariana Grande se destacam mais uma vez. A sintonia entre as duas, dentro e fora de cena, é o que sustenta a emoção da franquia. Ariana entrega um trabalho mais maduro nesta segunda parte.

O preço da omissão

Embora Glinda se apresente como alguém movida por boas intenções, o filme evidencia como a busca por aprovação pode se transformar, sem que ela perceba, em cumplicidade política. Em Oz, “tentar agradar” não é um gesto neutro: ao aceitar o conforto da posição pública que lhe oferecem, Glinda valida a narrativa oficial e sustenta, ainda que involuntariamente, a estrutura autoritária do Mágico. A personagem funciona como um retrato de quem participa do poder não por maldade, mas por omissão, e isso tem consequências reais no rumo do mundo ao seu redor.




Esse conflito, no entanto, não se resume à pressão externa, e sim também ao próprio modo como Glinda entende o poder: ela representa o tipo de personagem que não escolhe o poder, mas também não o recusa. Sua vaidade e seu desejo de aceitação a conduzem por um caminho onde as intenções deixam de importar. Wicked: Parte 2 usa essa dinâmica para ilustrar uma verdade desconfortável: não é preciso ser o vilão da história para sustentar um regime injusto; basta não questioná-lo. A cumplicidade de Glinda nasce justamente dessa combinação entre ingenuidade e ambição, e é nesse ponto que o filme encontra uma das suas leituras políticas mais afiadas.

Wicked: Parte 2 (2025)

A continuação dirigida por Jon M. Chu dá sequência ao tom político estabelecido no primeiro filme, aprofundando ainda mais o desconforto moral, o impacto visual e a discussão sobre o que significa ser bom naquele universo.

No centro da trama continuam as duas bruxas em conflito ético: Elphaba e Glinda. Ex-colegas de quarto na Universidade Shiz, elas agora se encontram em lados opostos da moralidade pública. Marcada para sempre pela pele verde, Elphaba é oficialmente estigmatizada como a Bruxa Má do Oeste pela máquina de propaganda do Mágico. Sua resistência contra a crueldade do regime, especialmente contra os animais que antes falavam e pensavam e agora foram silenciados à força, faz com que sua imagem oscile entre revolucionária e terrorista, dependendo de quem narra a história.

Glinda, sempre impecável em tons de rosa e looks belíssimos, se tornou o rosto público do governo. Ela foi capturada pela influência firme de Madame Morrible (Michelle Yeoh) e, para justificar sua atuação ao lado do regime, combina boas intenções genuínas com um impulso forte de autopreservação. Elphaba e Glinda acreditam estar fazendo o que é certo, ou pelo menos lutando para chegar perto disso.

Wicked: Parte 2 (2025)

Na trama, Elphaba luta para defender os animais banidos de Oz, enquanto Glinda desfruta do conforto e da idolatria pública. Desse contraste nasce uma tensão crescente entre as duas, que se mantém constante ao longo do filme, incluindo um gesto particularmente cruel vindo de Glinda. Por mais provocador que seja dizer isso, ambas entregam atuações ainda mais fortes do que antes.

Ambos os lados da disputa também têm interesse romântico pelo príncipe Fiyero (Jonathan Bailey), colega de escola e paixão em comum. Agora líder da Gale Force, a força policial militarizada do governo, Fiyero representa o braço armado do poder.

A construção da vilania pública e o papel da propaganda

Jeff Goldblum interpreta o Mágico como um líder manipulador que prospera na mentira. Seu carisma é transformado em arma, mantendo o público de Oz fiel a ele por meio do espetáculo e do medo. “Eles nunca vão parar de acreditar em mim, e você sabe por quê? Eles não querem”, diz ele, em uma fala que ecoa discussões políticas cada vez mais atuais.

Esse retrato inicial abre espaço para uma leitura ainda mais ampla sobre como o filme enxerga o poder e a manipulação. A interpretação de Jeff Goldblum dá ao Mágico uma dimensão política que vai além da simples vilania. Ele transforma carisma em ferramenta de controle, governando não pela força bruta, mas pela performance. É um líder que entende que o espetáculo é parte essencial da manutenção do poder, e que a mentira funciona como narrativa quando se apresenta envolta em brilho, truques e promessas confortáveis.

Ao afirmar que o público “não quer parar de acreditar”, ele expõe a lógica central do regime: a ilusão só se sustenta porque as pessoas preferem a segurança de uma história bem contada ao desconforto da verdade. Wicked sugere que regimes autoritários florescem não apenas pela ambição de quem está no topo, mas também pela disposição coletiva de aceitar versões mais confortáveis da realidade.

Wicked: Parte 2 (2025)

Os coadjuvantes e a origem de personagens famosos

As participações secundárias ajudam a expandir aquele mundo. Nessarose (Marissa Bode), irmã de Elphaba e recém-nomeada governadora de Munchkinland, simboliza os perigos de ceder politicamente. Boq (Ethan Slater), sempre gentil, vivencia o sofrimento emocional de existir em uma sociedade censurada. Até os menores personagens carregam uma tristeza discreta.

Ao longo do filme, surgem figuras clássicas da mitologia de Oz: Dorothy, o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde seguem pela Estrada de Tijolos Amarelos em busca do Mágico para realizar seus desejos. Eles surgem como espectros dentro de uma história que, em grande parte, não é deles. Ainda assim, sabemos mais sobre a origem dos sapatinhos de rubi, sobre identidades ocultas de certos personagens e até sobre a tecnologia por trás da bolha rosa voadora de Glinda.

A direção de Chu é cheia de energia e propósito. Assim como no primeiro longa, ele continua a transportar a grandiosidade da Broadway para o cinema. O trabalho de figurinos e produção domina a tela. Visualmente, o longa também impressiona. Entre os destaques está uma sequência filmada em plano único, pensada claramente para chamar atenção do Oscar, em que a câmera desliza entre espelhos e reflexos enquanto Ariana Grande canta. 

Cynthia Erivo e Ariana Grande novamente são a alma do filme. Cynthia Erivo entrega uma Elphaba magnética, firme e intensa, enquanto Ariana Grande supera sua performance anterior ao transformar sua veia cômica característica em uma presença verdadeiramente encantadora. Ariana encontra mais profundidade na personagem conforme o noivado de Glinda entra em crise e ela começa a questionar o rumo da própria vida.

Os méritos e desafios de Wicked: Parte 2

Entre amantes do musical no teatro, é consenso que a primeira metade da obra de Stephen Schwartz, inspirada no universo de O Mágico de Oz e no romance de Gregory Maguire, é muito mais forte do que o que vem depois do intervalo. 

A sequência de “Defying Gravity” da Parte Um continua inigualável, mas o que realmente une os dois filmes são as particularidades de cada personagem, as reverberações temáticas e o cuidado visual que dá continuidade a essa jornada. São obras que se completam de maneiras profundas e igualmente recompensadoras.

Seja para espectadores que amam musicais há décadas ou para quem está entrando no mundo do cinema pela primeira vez, é certo imaginar que essas obras certamente terão impacto real em alguém. Provavelmente em muitos.

Wicked: Parte 2 (2025)

Wicked: Parte 2 encerra a história de forma envolvente e totalmente merecida. O filme aposta em reflexões diretas sobre a dificuldade de preservar a moralidade em tempos turbulentos. A combinação dos números musicais cheios de exuberância e o desempenho impecável de Cynthia e Ariana transforma essa conclusão em algo hipnotizante.

Filmada consecutivamente com a primeira parte, esta continuação preserva o estilo e a estética já estabelecidos. Os cenários permanecem expansivos e brilhantes, transmitindo facilmente a sensação de mundo fantástico. E mesmo que nenhuma canção consiga superar “Defying Gravity”, a interpretação de “For Good” se transforma em um dos pontos mais emocionantes do longa. A força da amizade entre as duas personagens aparece com toda a intensidade, reforçando a base emocional da história que foi construída ao longo dos dois filmes. É um número comovente e bonito, capaz de arrancar lágrimas com facilidade.

Visualmente, o filme incorporou críticas direcionadas à Parte Um e entregou algo um pouco mais vívido. A paleta de cores está um pouco mais saturada e a direção de arte aproveita novos espaços, como a Estrada de Tijolos Amarelos e o esconderijo de Elphaba, para ampliar a sensação de mundo vivo que antes parecia apagado. 

Wicked: Parte 2 é um desfecho vibrante e envolvente. A produção mantém o luxo visual do primeiro filme e aposta em temas mais sombrios e diretos sobre ética e moralidade, e um final que encanta. O longa explora como a consciência de cada personagem é testada até resultar em um desfecho turbulento, porém satisfatório.