[Crítica] A Meia-Irmã Feia (2025)
Os padrões de beleza inalcançáveis impostos às mulheres há décadas encontram no cinema de horror um terreno fértil para reflexão. De Carrie – A Estranha, adaptação de Stephen King, à vencedora do Oscar A Substância, o corpo feminino costuma ser retratado como um campo de punição constante, atravessado por vozes que exigem correções, cortes, contenções e sacrifícios intermináveis. Dentro desse subgênero já bastante explorado, A Meia-Irmã Feia, estreia da norueguesa Emilie Blichfeldt na direção, realiza algo raro em um mercado saturado: não apenas chama atenção, como provoca repulsa a precisa.
Desde os primeiros minutos, a narrativa já se dedica a contextualizar essa releitura. A narrativa retoma o conto de Cinderela, de Charles Perrault, mas muda o foco para Elvira (Lea Myren), a meia-irmã tradicionalmente relegada ao papel de antagonista grotesca. Consumida pela obsessão de conquistar o afeto do belo Príncipe Julian (Isac Calmroth), Elvira aceita qualquer meio para se tornar sua escolha, desde deformar o próprio nariz à força, até suportar procedimentos dolorosos que alinham dentes e remodelam o corpo. À sua volta está Agnes (Thea Sofie Loch Næss), a meia-irmã cuja beleza parece natural e incontestável, alguém destinada a receber tudo aquilo que Elvira sempre desejou. À medida que o baile real se aproxima, Elvira passa a não reconhecer limites em sua busca por aprovação.

Ao longo do filme, A Meia-Irmã Feia se move constantemente entre o belo e o repulsivo. A opulência dos cenários e figurinos, repletos de babados, laços, maquiagem carregada e tons rosados, contrasta com atos de crueldade extrema praticados entre os próprios personagens. A fotografia se intensifica gradualmente à medida que Elvira definha diante dos nossos olhos, funcionando como uma metáfora visual direta do efeito corrosivo que padrões de beleza inalcançáveis exercem sobre as mulheres no cotidiano.
Ao mostrar Agnes como alguém com uma beleza natural, em que tudo a favorece, e Elvira como o oposto desse padrão, sendo considerada desajeitada, feia e fora da norma, o filme deixa clara a hierarquia rígida que existe entre quem é visto como belo e quem não é, seja em contos de fadas ou no mundo real. Beleza funciona como capital, como proteção social, ainda que frágil. Quem não a possui acaba relegado à invisibilidade.

A Meia-Irmã Feia escancara essa lógica cruel e expõe até onde as pessoas estão dispostas a ir para alcançar esse ideal, sobretudo quando a competição, mesmo injusta, é incentivada. Já que Elvira não se encaixa no padrão de beleza daquele mundo, sua aparência é tratada como um problema a ser corrigido.
Os efeitos práticos reforçam essa abordagem. A câmera não se esquiva de registrar transformações corporais violentas e corpos sendo moldados à força. São imagens desconfortáveis, pensadas para causar repulsa, mas que também funcionam como espelho. Elas provocam uma pergunta incômoda: até onde alguém iria sob a mesma pressão? Mesmo que a gente não se reconheça nas escolhas extremas de Elvira, é difícil não se identificar com as inseguranças que a movem. É como se existisse um pouco da meia-irmã feia em todos nós, como refletiu a diretora em uma entrevista.

Os personagens masculinos são retratados de forma deliberadamente desagradável. Diferente do que o conto tradicional costuma sugerir, o “príncipe encantado” aqui não é uma figura idealizada. Os homens opinam sobre beleza, mas não sofrem as mesmas cobranças que recaem sobre as mulheres. É uma leitura dura e precisa da sociedade, de novo, dos contos de fadas e da vida real.

É justamente por meio dos sacrifícios impostos a Elvira que o filme explicita a obsessão coletiva, de homens, mulheres e instituições, por magreza e perfeição física. Pequenas imperfeições são ampliadas até se tornarem intoleráveis, levando a soluções absurdas e autodestrutivas. O resultado é a sensação perturbadora de que, apesar das mudanças de discurso ao longo dos séculos, a lógica de violência simbólica e material sobre os corpos femininos permanece essencialmente a mesma.

O body horror atravessa toda a narrativa, desde a cirurgia primitiva no nariz de Elvira até sua decisão de ingerir ovos de tênia como método de emagrecimento. O ápice dessa violência corporal ocorre quando, obcecada em se encaixar no sapato deixado por Agnes após o baile, Elvira tenta mutilar os próprios pés ao perceber que eles não cabem no objeto. Incapaz de concluir o ato, ela é “ajudada” pela mãe, determinada a garantir o casamento da filha mais velha, mesmo que isso signifique sacrificar partes dela no processo.

O filme não é sutil e os paralelos com os nossos tempos são claros. O ovo da tênia surge como símbolo de práticas históricas perigosas associadas a dietas da moda voltadas às mulheres. Durante a era vitoriana, a obsessão por corpos cada vez menores levou à popularização do consumo de parasitas e até de pílulas de arsênico como método de emagrecimento. Hoje, vemos receitas milagrosas de emagrecimento aos montes nas redes sociais, assim como canetas emagrecedoras falsificadas ou usadas de forma irresponsável.

Entre fluidos corporais, órgãos expostos e gritos viscerais, A Meia-Irmã Feia expõe de forma implacável padrões sociais que levam mulheres não apenas a se destruir, mas a voltarem essa violência umas contra as outras. O longa ilumina a misoginia entranhada nos contos de fadas que moldaram gerações, revelando a podridão por trás de narrativas supostamente inocentes.

Ao levar essa violência ao limite físico, A Meia-Irmã Feia recusa qualquer conforto moral. O filme entende que não se trata apenas de ficção, mas de um reflexo brutal das formas pelas quais sociedades dominadas por homens seguem moldando, corrigindo e violentando corpos femininos, exigindo sacrifícios femininos em nome de um ideal inatingível, naturalizando a violência enquanto a chamam de escolha.
