[Crítica] Bolero: A Melodia Eterna (2024)
De onde vem a inspiração na arte? Não há uma resposta definitiva, mas alguns ingredientes são necessários, como talento e tentativa. Maurice Ravel já afirmou que não acredita em musas. “Acredito na música, honro-a e rezo a ela, mas ela nem sempre me responde”, disse ele. Bolero: A Melodia Eterna conta a história do compositor, famoso mundialmente pelo “Bolero”.
De acordo com a informação ao final do filme, a cada 15 minutos alguém no mundo toca a música. Ainda que a informação não seja exatamente precisa, ela se sustenta pela familiaridade de praticamente qualquer pessoa com a melodia, já tão utilizada em filmes, séries, shows, programas de TV, comerciais… O filme dirigido por Anne Fontaine é um longa-metragem “clássico”, que segue os moldes de uma cinebiografia tradicional. O ritmo do filme é lento, construindo aos poucos a imagem do artista que parece rejeitar a felicidade e antecipar o desastre, enquanto cria sua obra-prima.

Em 1927, Maurice Ravel (Raphaël Personnaz) foi contratado para escrever uma música para o balé da coreógrafa Ida Rubinstein (Jeanne Balibar). O artista, que é criticado por ser pouco emotivo, está com bloqueio criativo durante o processo da composição. A maior parte do filme se passa nos seis anos de procrastinação entre o momento em que aceitou a encomenda da composição para o balé e a sua primeira apresentação. Pelo ritmo lento, às vezes pode ser mais difícil se engajar com a história. Assim como um crítico já definiu Ravel como alguém com composições incapazes de passar emoção, o filme também sofre desse problema.
Bolero: A Melodia Eterna é uma cinebiografia feita nos moldes tradicionais, mas que esconde a dor latente do personagem em todas as cenas, retratando o artista que se perde em sua música. Em uma das cenas mais fortes, Ravel, no fim da vida e progressivamente mais desvinculado do mundo, ouve uma gravação de “Bolero” e se pergunta, surpreso: “Será que eu escrevi isso mesmo? Não foi ruim”.
Com alguns bons momentos, mas morno na maior parte do tempo, Bolero: A Melodia Eterna é um filme que não atinge o seu potencial por completo. A fotografia é boa e consegue criar a atmosfera da Paris daquele tempo, seja nos grandes salões, clubes de jazz esfumaçados ou siderúrgicas. A forma como o filme foi construído também é um ponto positivo, iniciando com todo o glamour da Paris dos anos 1920 e, em seu final, mostrando o preço que aquela busca artística incansável causou na psique de Ravel. No fim das contas, é um filme mediano: entrega um retrato bonito, mas emocionalmente contido. Um bom esforço, mas aquém de seu potencial.

