[Crítica] Síndrome da Apatia (2024)
A Síndrome da Resignação parece algo inventado em uma distopia. Mas infelizmente não foi inventada. Durante a década de 1990, centenas de filhos de refugiados caíram em coma profundo; eles não comiam, não se mexiam e não regiam a estímulos externos. A síndrome é registrada na Suécia desde 2005 e atinge refugiados de 8 a 15 anos. Acredita-se que isso acontece pelo sofrimento e insegurança que vivenciavam com sua família em meio ao estressante processo migratório. Em Síndrome da Apatia, o diretor Alexandros Avranas faz uso dessa condição para contar o drama de uma família e refletir sobre uma condição mundial.
No filme, após um violento ataque político, Sergei (Grigoriy Dobrygin), Natalia (Chulpan Khamatova) e suas filhas Katja (Miroslava Pashutina) e Alina (Naomi Lamp) fogem da Rússia e pedem asilo político na Suécia. Eles começam a fantasiar sobre esse novo recomeço de vida, mas não conseguem o asilo. E, ao encarar a perspectiva de retornar à Rússia, Katja, que testemunhou um episódio de violência com sua família, cai no coma profundo. O filme não se propõe a nos explicar e informar detalhes sobre a síndrome. Em vez disso, aborda a condição como um sintoma que existe em uma sociedade que não dá segurança a refugiados e imigrantes.

Assim que Katja entra em coma, os seus pais seguem os tratamentos médicos da Suécia e fazem aulas para aprender a lidar com a filha catatônica – essas cenas das aulas, inclusive, têm um ótimo toque de absurdo. Há sempre uma tensão no ar, pois qualquer erro pode impedir que os pais tenham direito a visitar sua filha. Apesar de não saber se o tratamento médico retratado no filme tem algo de real, fica claro que Síndrome da Apatia usa o método como uma metáfora para mostrar a falta de tato, empatia e cuidado humano com que os governos enfrentam a crise migratória mundial.
A estética de algumas cenas beira a ficção científica. Com planos simétricos, espaços grandes, impessoais, frios e cheios de vazio, que remetem à solidão que aquela família vive, com aparência clínica e levemente pós-apocalíptica. É a tradução de um ambiente – e um mundo – hostil. Os planos simétricos denunciam a rigidez do sistema. É perturbador imaginar que o filme é inspirado em fatos reais. Ao longo de suas quase 2 horas de duração, acompanhamos uma família presa nas engrenagens de um sistema que parece pronto para sempre mantê-los subjugados. Acompanhamos as suas expectativas sendo frustradas a cada cena e sua luta desesperada e incansável por sobrevivência.

Todo o elenco de Síndrome da Apatia consegue transmitir na tela a intensidade do que estão passando, o que aumenta a nossa empatia por cada personagem e o desejo por um final humanitário e humanista. Todos os quatro personagens principais conseguem mostrar uma intensidade silenciosa e agoniante a cada cena, a cada olhar e a cada diálogo, com nuances sombrias e toques de terror e ficção científica que exemplificam como o sistema migratório é falido. Os atores que interpretam os pais e as filhas conseguem trazer profundidade e emoção crua aos seus personagens, especialmente Dobrygin e Khamatova, que lutam para tentar a todo custo proteger suas filhas em um mundo totalmente indiferente a sua dor.
O desconforto é palpável durante todo o filme. Apesar de um ar de ficção científica em alguns momentos, o filme também mostra um realismo cru e verdades incômodas em cenas agoniantes, como as das crianças interrogadas pelas autoridades suecas. A crítica é óbvia, mas é representada visualmente de forma eficaz. O tom que o filme ganha após a segunda filha também cair em coma profundo eleva a obra ao flertar ainda mais com o absurdo, como quem esfrega na nossa cara as situações pelas quais aquelas pessoas precisam se submeter.

Síndrome da Apatia ganhou o Prêmio Interfilm no Festival de Veneza de 2024 por sua abordagem crítica e real ao sistema de asilo europeu. Apesar da temática pesada, o filme nunca segue para o melodrama simples, para o sofrimento dramatizado. Os focos são sempre a frieza das instituições e o sofrimento humano cru dos personagens. O filme é lento, como se acontecesse em câmera lenta e focasse nos olhares, na falta de esperança e na repetição – como o ensaio do pai para a filha decorar o texto que deverá ser recitado às autoridades – que representa a frustração que aquela família vive, os traumas e a burocracia asfixiante. Mesmo sem cenas explícitas, o filme consegue traduzir uma sensação constante de desamparo e agonia.
Síndrome da Apatia se mostra um posicionamento firme contra os sistemas de imigração atuais de todo o mundo. No filme, somos colocadas em frente a um sistema que não protege os mais vulneráveis. O longa é um olhar poderoso sobre como nossa sociedade pode se tornar fria e cruel rapidamente, mesmo quando isso pode afetar a vida de crianças. Katja e Alina não são apenas crianças doentes; elas são metáforas vivas da espera e do abandono. Não é um filme fácil, é incômodo. Também não é um filme de grandes reviravoltas e ação. É um filme de contemplação, reflexão e crítica social. É impossível sair da sessão sem sentir o peso de um sistema que silencia — e continua silenciando — tantas vidas.
Síndrome da Apatia é um dos filmes que compõem o 1º Festival de Cinema Europeu Imovision.

