[Crítica] Ainda Estou Aqui (2024)
Ainda Estou Aqui estreou no Festival de Veneza e fez muito barulho. Desde lá, o filme foi elogiado em cada festival internacional que passou, aumentando a probabilidade dele ser escolhido como representante do Brasil no Oscar (o que acabou acontecendo). Além disso, desde as primeiras exibições críticos internacionais rasgaram elogios para a atuação de Fernanda Torres, fazendo da atriz também uma forte concorrente à premiação. Com todo esse histórico, era natural que o filme chegasse às salas de cinemas brasileiras já com expectativa alta entre o público.
Mesmo ambientado no Brasil e falando sobre a história do Brasil, em específico, sobre o período da ditadura militar, o filme tem uma história simples e universal, podendo ser bem entendido e sentido por pessoas de qualquer lugar do mundo. Ainda Estou Aqui é uma adaptação do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva e conta a história de sua mãe, Eunice, interpretada por Fernanda Torres, esposa de Rubens Paiva, que no filme é interpretado por Selton Mello. Rubens Paiva é um ex-deputado que foi cassado após o golpe de 1964. Ele foi sequestrado pelos militares e nunca mais voltou para casa.
O filme conta uma história universal por focar principalmente na dinâmica desta família. O cenário da ditadura no Brasil é conhecido pela maioria de nós, tendo vivido ou não a época, mas o filme foca nas relações entre Eunice e seu marido, entre Eunice e seus filhos, além de focar na resistência de Eunice em buscar respostas. A família vive em uma região de classe alta do Rio de Janeiro e parece ter uma vida perfeita. Dentro de casa, a vida corre bem. Mas a sombra está lá fora, com o dia a dia dos brasileiros sendo controlado – e ameaçado – pelo exército. O longa mostra não apenas um episódio sombrio e doloroso na história de Marcelo Rubens Paiva, como um período sombrio da história do Brasil.

O filme passa por várias fases da vida dos personagens, da agradável e carinhosa rotina da família, ao suspense quando Rubens Paiva é levado de casa pelos militares, ao drama de prisão e, por fim, ao trauma que esse acontecimento causou na família. Acompanhamos os filhos de Eunice desde a infância até a vida adulta. São muitas camadas contadas no filme ao longo de seus 2h17 de duração e tudo é mostrado de forma ágil, sem perder o ritmo em nenhum momento.
Fernanda Torres é o destaque absoluto do filme. Impossível não sair da sala do cinema sem sentir o impacto da forma que ela interpretou as vivências e nuances da história de Eunice. A atriz consegue brilhar a cada cena, capturar a nossa atenção e traduzir de forma natural a vida daquela dona de casa de classe média alta, que do dia pra noite se torna uma esposa que perdeu seu marido para a ditadura e vítima do regime militar. Cada detalhe de sua atuação mostra toda a dor e desalento de alguém que perdeu quem amava para a ditadura e demorou anos para ter alguma resposta sobre o que aconteceu. A atriz consegue nos mostrar muita dor nas entrelinhas, no olhar e com expressões sutis e dolorosas nos momentos certos.

Eunice, e consequentemente Fernanda Torres, é o coração do filme. Toda a alma do filme está em sua força e garra para resistir a cada dia e cuidar da sua família. Mas todo o elenco consegue desempenhar o seu papel com qualidade, e isso inclui cada um de seus filhos, especialmente na primeira parte do filme, que é mais aprofundada. Selton Mello é outro grande destaque do filme. Ele consegue interpretar o anti-facista Rubens Paiva de forma doce e divertida e nos entrega um personagem cheio de coração e afeto. Mesmo não participando de boa parte do filme, o ator consegue deixar a sua marca e ser lembrado. Enquanto o seu personagem participa do filme, tudo é representado de forma mais vibrante e alegre. Após o seu desaparecimento, o filme assume um tom fotográfico mais escuro, além do tom narrativo mais sombrio. Vamos de um filme solar para praticamente um filme de terror.
O último bloco do filme, que mostra a emissão da certidão de óbito de Rubens Paiva, em 1996, e as revelações feitas em 2012 com a Comissão da Verdade, dão, sem dúvida, um senso de reparação histórica quando assistimos, ainda que muito tardia. Ainda assim, a cena final é o momento em que o filme perde um pouco de sua força e mostra cenas um pouco mais descartáveis. Fernanda Montenegro, que está perfeita em sua atuação apenas com o olhar e sem falar nenhuma palavra, acaba virando uma participação especial com mais peso para a nossa dramaturgia e uma homenagem do que com peso para o filme e sua história em si. É como se os últimos momentos não precisassem estar ali e o longa finalizaria muito bem antes delas. Elas não tiram o mérito e peso construído em todos os momentos anteriores. Mas a última cena apenas repete uma mensagem que já havia sido transmitida pelo filme antes, de uma maneira melhor trabalhada.

Ainda Estou Aqui é uma das melhores produções contemporâneas do cinema nacional. Além do peso natural da história e das atuações sólidas, o filme consegue acertar em toda a ambientação e nos transporta diretamente para os anos 1970, ao mesmo tempo em que narra uma história intimista e nos faz rapidamente nos sentir parte daquela família, como testemunhas que estão acompanhando tudo de perto. Apesar de não focar em mostrar explicitamente os horrores da ditadura, em alguns momentos nos dá um vislumbre. O horror está muito mais nas entrelinhas, no desespero, na falta de esperança, na tensão diária e na falta de respostas, e isso já é o suficiente para fazer o estômago embrulhar, sem que o filme mostre explicitamente torturas e assassinatos.
No Brasil de 2024, infelizmente faz muito sentido Ainda Estou Aqui existir como um alerta. O filme é um forte lembrete em um momento em que muitos flertam com o fascismo e olham para trás com um revisionismo histórico de dar calafrios. É uma alegria que as sessões do filme estejam constantemente cheias e repercutindo tanto entre o público. Ele é um filme que nos faz refletir sobre a nossa história e deixa impossível sair da sala de cinema sem sentir angústia, tristeza, raiva ou tudo isso junto. Uma indicação ou vitória no Oscar vira mero detalhe perto disso.
Ainda Estou Aqui um filme sensível e grandioso, sobre resiliência, busca por justiça e força, que faz uma completa imersão com quem assiste, nos deixa com um nó na garganta, mas cheios de orgulho pelo cinema nacional. Cinema é memória e ele está aqui para lembrar do país que já fomos e que, esperamos, nunca mais seremos.

