Crítica

[Crítica] Ninguém Sai Vivo Daqui (2023)

Ninguém Sai Vivo Daqui, de André Ristum, é uma adaptação do livro-reportagem de Daniela Arbex, Holocausto Brasileiro. O tema é o caso do hospital psiquiátrico de Barbacena, símbolo dos abusos da psiquiatria, que foram denunciados inclusive por Michel Foucault em História da Loucura.

O longa foca na história de Elisa (Fernanda Marques), que engravida antes do casamento, se recusa a casar com um homem bem mais velho que ela, arranjado por seu pai, e é internada à força por sua família. De acordo com o diretor, a imagem em preto e branco é um personagem do filme. O diretor contou que não via forma de contar essa história a não ser em preto e branco. É como se simbolizasse a falta de cor, e consequentemente de vida, no cotidiano daquelas pessoas internadas e vítimas de injustiça.

Ninguém Sai Vivo Daqui (2023)

A história de Elisa é fictícia, mas foi baseada em fatos reais que aconteceram entre 1903 e 1980 de pessoas que foram internadas à força no Centro Psiquiátrico Hospitalar de Barbacena, em Minas Gerais, conhecido como Colônia. Mais de 60 mil pessoas morreram no local por causa de métodos inadequados de tratamento psiquiátrico, como abusos físicos e psicológicos e terapias de choque. Entre os internados havia pessoas em situação de rua, mulheres que engravidaram antes do casamento, homossexuais, mães solteiras… Pessoas fora do “molde” tido como desejável para a sociedade daquela época (ou até hoje?).

A base para Ninguém Sai Vivo Daqui é uma situação real exibida muitas vezes em forma de terror psicológico, com cenas fortes mostrando maus-tratos, torturas e as condições degradantes que aquelas pessoas eram submetidas diariamente. Mas apesar de ser uma história impactante, com cenas fortes e situações perturbadoras, o filme não consegue criar uma narrativa fluida, aprofundada e consistente.

Há mudanças bem bruscas na protagonista, por exemplo, que poderiam soar mais naturais se a personagem tivesse sido mais trabalhada e explorada pelo roteiro. Passa a impressão de que a personagem muda drasticamente em alguns momentos porque é o que melhor convém ao roteiro, para resolução dos pontos em aberto. As personagens secundárias também não são muito exploradas, o que também contribui para a sensação de que o filme é raso, mesmo, em teoria, tendo tudo para ser qualquer coisa além de raso.

Ninguém Sai Vivo Daqui (2023)

Ninguém Sai Vivo Daqui também parece não se decidir entre se aprofundar em seu gênero, às vezes tentando pincelar o gênero de horror, principalmente usando artifícios como a trilha sonora, e outras vezes indo para o caminho de um drama de forma óbvia, um melodrama ou folhetim. É como se o filme introduzisse diversas possibilidades de enredos e vertentes promissoras, mas não conseguisse adentrar em nenhuma delas com propriedade, sem fazer jus ao material que tinha em mãos. Talvez o filme cresceria se abraçasse mais os aspectos políticos e sociais da história, em vez de ocasionalmente tentar focar no terror convencional, que da forma que é feito enfraquece a história contada.

Saber que aquilo tudo foi baseado em histórias reais deixa um impacto no espectador, mas, após assistir e processar o filme, vai ficando mais claro que a história não foi utilizada em todo o seu potencial. É um filme engessado e sem muita inspiração ou criatividade. Uma boa proposta, com uma fotografia interessante, mas sem profundidade e foco. É uma história importante de ser conhecida por todos nós, mas Ninguém Sai Vivo Daqui trata o tema de forma muito unidimensional.