Crítica

[Crítica – Cine PE 2024] Grande Sertão (2024)

Grande Sertão, novo filme dirigido por Guel Arraes, faz adaptação do livro de 1956, o clássico Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Em vez de se passar no sertão, o filme é ambientado em uma favela distópica, em um futuro não tão distante do nosso. O longe se passa em uma comunidade chamada “Grande Sertão”

Mesmo não sendo ambientado nos tempos atuais, a história tem semelhanças com nossa realidade. como quando uma criança é vítima de bala perdida. Em um cenário de guerra, Riobaldo (Caio Blat) e Diadorim (Luisa Arraes) tentam sobreviver. O ritmo do filme é acelerado e foca tanto na ação, na guerra urbana, quanto na história de amor entre os dois personagens principais, tudo conduzido pela narração do Riobaldo do futuro.

Cine PE 2024 - Grande Sertão

A estética do filme me remeteu à série 3%, da Netflix. Mas não falo isso de uma forma positiva. Apesar do ritmo acelerado do início ao fim, o filme é maçante de assistir. Sua duração não chega a 2 horas, mas senti que o assisti por bem mais tempo que isso. E, apesar daquela realidade ser muito semelhante à nossa, senti que o filme distancia o público. A distância também se dá pela construção confusa do roteiro em diversos momentos.

Além disso, toda a linguagem e atuação são teatrais demais, por isso imagino que o roteiro e até mesmo os atores seriam melhor aproveitados se o projeto fosse uma peça de teatro. Caio Blat e Luis Miranda estão bons em seus papéis em alguns momentos; o primeiro consegue diferenciar bem sua atuação nos dois momentos distintos do personagem, enquanto está na guerra ou enquanto está narrando tudo que viveu.

Luellem de Castro, que interpreta Nhorinhá, foi a única atriz que estava com a atuação no tom de cinema do início ao fim do filme. Mariana Nunes também entrega uma ótima atuação no início, ao demonstrar toda a dor que Otalícia sente ao ver sua filha morrer por bala perdida. Essa cena no início do filme, inclusive, me fez acreditar que eu gostaria dele.

Mas, no geral, as atuações do filme pecaram por serem caricatas demais. Todas elas caberiam melhor em cima de um palco, no teatro. Para o cinema, achei over. Cenas que poderiam ficar ótimas no palco, ali não cabiam e não soavam naturais e verossímeis.

Cine PE 2024 - Grande Sertão

O enredo de Diadorim é um dos mais interessantes. Uma pena que o plot twist tenha surgido apenas bem perto do final do filme. Se as suas questões fossem mais exploradas desde o início do filme, mais aprofundadas, ou mesmo se o filme fosse focado em Diadorim, acredito que eu teria gostado mais. Riobaldo fica confuso ao perceber que o sentimento pelo rapaz é maior do que amizade, e sofre com isso ao perceber que está amando um homem. Depois, ele descobre que Diadorim é uma mulher que se disfarçou de homem para poder lutar junto ao seu pai. O momento que ele descobre isso é uma das cenas mais bonitas do filme. Acredito que se esse enredo tivesse sido mais aprofundado, seria forte, interessante e significativo, além de dar mais complexidade ao filme.

Em entrevista ao Omelete, Luisa Arraes afirmou que fica feliz quando escuta que o filme ‘não deixa claro’ o gênero de Diadorim. “O que eu poderia trazer para esse mundo masculino em que o personagem vivia? Eu não quis só afetar um homão, quis também trazer o feminino, quase representar um homem gay ali – e mostrar como isso provocaria a sexualidade daqueles machões ao redor do Diadorim”, disse a atriz sobre o personagem.

Cine PE 2024 - Grande Sertão

A alegoria do Grande Sertão ser aquela comunidade também poderia ter sido melhor explorada. O longa poderia não ter tirado a história original do sertão e ter levado para o já batido eixo Rio-São Paulo. Mas, se essa alteração fosse bem executado, talvez esse detalhe não seria um defeito incômodo.

O filme Grande Sertão poderia ser épico e marcante, mas o resultado é um longa bagunçado, caricato, entediante, que não consegue criar conexão com o público e nem mesmo as cenas de ação – que são muitas – empolgam. Grande Sertão perdeu uma oportunidade de fazer um ótimo filme sobre um clássico da literatura brasileira.

Grande Sertão faz parte da 28º Edição do Cine PE

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