Crítica

[Crítica] Bebê Rena (2024)

Bebê Rena é uma das minisséries mais impactantes que já assisti da Netflix. Comecei a assistir sem saber muito sobre o que seria e fui surpreendida por um enredo bem mais perturbador do que eu esperava. Para deixar tudo ainda mais perturbador, a série foi baseada na história real da vida de seu criador Richard Gadd, que também é o protagonista do projeto.

Inicialmente, parece ser uma série sobre uma stalker e sua vítima com toques de humor ácido. Mas a série vai muito além disso e toca em temas bem delicados e fortes, como saúde mental, abusos e traumas. A história fala sobre o escritor e comediante Donny Dunn (Richard Gadd) e sua stalker Martha (Jessica Gunning). Os dois se conhecem casualmente no bar em que ele trabalha e a mulher passa a persegui-lo obsessivamente. Em 2019, Gadd lançou uma peça contando sobre essa história, durante o Edinburgh Festival Fringe.

Crítica - Bebê Rena

Gadd foi perseguido durante quatro anos. A minissérie mostra as mensagens constantes que ele recebia. Ao todo, foram 41.071 e-mails, 350 horas de mensagens de voz, 744 tuítes, 46 mensagens no Facebook e 106 páginas de carta. Mas a minissérie vai além da superfície e mostra também Donny como um personagem complexo, contraditório e com erros e atitudes questionáveis. No final da minissérie, por exemplo, vemos o protagonista ouvindo as mensagens enviadas de Martha como uma espécie de podcast. Ele categoriza as mensagens por temas/emoções e sabe a qual pasta recorrer quando sentir necessidade. As mensagens viram como uma trilha sonora de sua vida.

O roteiro de Bebê Rena mergulha na mente do protagonista e, a cada episódio, mergulha mais fundo. O roteiro afiado lida com todas as situações ali mostradas de forma realista e crua, causando muito desconforto – e às vezes pena e/ou raiva – em quem assiste. Nos vemos fisgados por aquela história, enquanto vamos conhecendo mais sobre os traumas e vivências de Donny e Martha. É um texto corajoso por escancarar tanta vulnerabilidade e também sensibilidade. Aqui, Martha não é uma vilã. Ela também é vista e tratada com empatia em muitos momentos.

As reviravoltas e ganchos da série não existem apenas para prender o espectador (apesar de ser uma série facilmente maratonável, pois é difícil parar de assistir), mas sim para dar mais profundidade e riqueza à trama e Donny. A história tem flashbacks que trazem informações importantes e dores na história do protagonista apenas em momentos cruciais do andar da minissérie. Somos confrontados constantemente pela insegurança e trauma de Donny, pelo delírio de grandeza e descolamento da realidade de Martha e por aí vai. E ainda que haja temas bem pesados, tudo é tratado de forma séria e madura, sem sensacionalismo barato. Nada aqui é glamourizado.

Crítica - Bebê Rena

A atuação dos dois protagonistas está perfeita. Em cada cena, os dois conseguem transmitir cada emoção de seus personagens e causar desconforto, constrangimento, raiva, pena, compaixão e várias outras emoções em nós que estamos assistindo. Richard Gadd consegue transmitir toda a confusão de sentimentos, contradição e angústia de seu personagem, e Jessica Gunning também escancara a ambiguidade da sua personagem, fazendo com que a gente transite entre sentimentos como raiva e pena por ela.

O quarto episódio, de longe o mais difícil de assistir, é bem profundo e sincero. Ao descer ao inferno com Donny, compreendemos ainda mais sobre o personagem e o que poderia ser questionável até então sobre suas atitudes (ou falta delas). O episódio trata de um tema delicado e também complexo de retratar, mas a minissérie consegue retratar de forma responsável, e ainda assim muito impactante. Esse episódio, inclusive, é um exemplo de como a minissérie não se resume apenas ao stalking e como cada acontecimento, seja do presente ou do passado, está ali por uma razão e adiciona camadas à trama. Cada acontecimento deixa marcas que podem ser difíceis de curar e que devem ser trabalhadas ao longo da vida. Por exemplo, sua bagagem emocional é um dos fatores que arruina o seu único relacionamento romântico que poderia ser saudável, com a mulher trans Teri (Nava Mau).

Crítica - Bebê Rena

O final da série também é forte e nada fácil. Mostra o lado sombrio não só da stalker. Entendemos o motivo do apelido “bebê rena”. Ele entende mais sobre o jeito de Martha, muito decorrente de seus traumas. Vemos a dependência que Donny sente por aquelas mensagens que Martha enviou (aliás, durante toda a série somos mostrados a esse misto de repulsa e atração que o protagonista passa). Ouvir a stalker o exaltando serve como um consolo às suas próprias inseguranças. Vemos Donny em um bar recebendo o mesmo ato de gentileza que mostrou a Martha no início da minissérie. Fim.

A minissérie tenta sempre mostrar os porquês e as consequências de cada ação, sem entregar respostas fáceis. Cada episódio adiciona uma peça à história e surpreende constantemente. Ao final, fica claro que Bebê Rena é muito mais sobre Donny Dunn e sua vida e jornada de autoconhecimento, autoaceitação e tentativa de cura do que sobre a perseguidora. É uma minissérie pesada e violenta, emocional e psicologicamente, mas necessária. Uma das melhores de 2024.

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