[Crítica] Propriedade (2023)
Propriedade, filme de Daniel Bandeira, é um thriller que trata sobre a desigualdade social no Brasil. O filme acompanha Teresa (Malu Galli), que fica traumatizada após ser vítima de um episódio de violência urbana. Ela e o marido decidem passar alguns dias na fazenda da família, no interior de Pernambuco, para relaxar. O homem irá transformar o local em um hotel. Quando os funcionários descobrem o plano para o local – e consequentemente descobrem que perderão os seus empregos – se inicia um motim.
Teresa se refugia no carro recentemente blindado; o carro não é apenas um cenário, como também é um personagem principal do filme. E os trabalhadores tentam tirá-la do veículo de todas as formas. Durante todo o filme, vemos de perto a colisão entre esses dois universos. É uma premissa simples, mas capaz de criar um clima de tensão constante, com críticas e analogias sobre questões até hoje atuais. De acordo com o diretor, o argumento do filme foi inspirado no cenário político do Brasil de 2018 e fala sobre dois extremos em choque.

Mais do que no texto, a história e emoções do filme são contados principalmente em imagens e expressões faciais e corporais. A personagem de Malu Galli, por exemplo, passa boa parte do filme dentro do carro, sozinha, sem ter ninguém ao seu lado para conversar. A ótima atuação da atriz se concentra principalmente em suas expressões desesperadoras, que conseguem transmitir toda a tensão pela qual a personagem está passando.
O vidro do carro separa aqueles dois mundos. Do lado de dentro, aparentemente protegida, a mulher de classe alta, cercada de privilégios. Também cercada pelos trabalhadores da fazenda, que vivem numa escravidão disfarçada. A revolta dos trabalhadores é compreensível e necessária. Eles exigem indenização ou direito de continuar trabalhando no local, que irá virar um hotel. Mas não há espaço para negociação. Como não entender o lado deles? E o filme consegue nos fazer entender um pouco de cada lado. Mas, apesar disso e de toda a ambiguidade durante quase todo o longa, Teresa acaba aparecendo como vítima na maior parte do tempo.
Apesar de ter sido muito comparado com Bacurau (2019), Propriedade se diferencia do longa também pernambucano por tentar apostar mais na ambiguidade e por tentar não escolher lados ou dar respostas a quem assiste. Em Bacurau, o cenário maniqueísta era evidente e justificável. Aqui, a situação é diferente e as nuances são outras.

Realista, brutal e claustrofóbico, o filme não se limita a responder e criar resoluções para todas questões. O filme não demoniza seus personagens, não aponta vilões ou mocinhos passíveis de erros, e cria espaço para que eles sejam impulsivos e tenham atitudes condenáveis. A abordagem realista de Propriedade deixa o filme tenso do início ao fim, mas falta um pouco de desenvolvimento de alguns personagens para que haja um pouco mais conexão com eles. O final do filme é inesperado e chocante.
Propriedade foi o único filme brasileiro na seleção do Festival de Cinema de Berlim.

