[Crítica – Mostra SP 2021] O Garoto Mais Bonito do Mundo (2021)

Este documentário nos conta a história de Björn Andrésen, que nos anos 1970 ficou famoso como o menino mais lindo do mundo, e como sua vida foi impactada pela atmosfera abusiva da indúsitra do cinema.

Na década de 1970, o tímido menino participou de uma audição, por influência da avó, grande fã de cinema e que o levou para a audição, e chamou atenção do diretor italiano Luchino Visconti. Ele foi escalado para o filme Morte em Veneza, versão para os cinemas da novela de Thomas Mann, e interpretou o jovem Tadzio, que hipnotiza o velho compositor interpretado por Dirk Bogarde.

Nas imagens de arquivo, Visconti visita Estocolmo e afirma que está à procura de um adolescente que encarne bem a visão de Thomas Mann, algo que provavelmente seria ouvido com mais estranheza hoje em dia. Visconti ficou fascinado com a beleza de Andrésen. Podemos ver vídeo da audição da década de 1970, em que o diretor pede para Andrésen tirar a roupa, e também uma coletiva de imprensa no Festival de Cannes, em que o diretor faz piadas absurdas sobre a beleza de Andrésen e sobre como ele não está mais em seu “auge”.

O Garoto Mais Bonito do Mundo (2021)

O “garoto mais lindo do mundo” tinha sua beleza celebrada e era admirado por vários homens mais velhos. E não havia ninguém ali para protegê-lo. A proteção não partiria de sua avó, certamente, já que ela desejava ter “uma celebridade como neto”. Hoje em dia, Andrésen continua a atuar. Podemos vê-lo atuando em Midsommar, de 2019.

Ao longo do documentário, Andrésen fala um pouco sobre suas tragédias pessoais. Ele fala sobre o desaparecimento de sua mãe e sobre a morte de um de seus filhos, por exemplo. O seu período em Paris é abordado de forma sutil e com delicadeza pelo documentário e fala sobre como o ator adolescente foi explorado por pedófilos, que pagavam 500 francos por semana para mantê-lo em um apartamento em Paris.

O Garoto Mais Bonito do Mundo (2021)

Foi idolatrado no Japão, gravou um álbum em japonês e comerciais, além de ter inspirado toda uma geração de autores de mangás ao encarnar o bishonen, garoto jovem e bonito. O documentário também nos mostra algo comum aos anos 1970, quando artistas cada vez mais jovens eram erotizados. Em Morte em Veneza, fica óbvio como o olhar da câmera para Tadzio é erótico. E sem o suporte familiar, Andrésen não estava preparado para conviver e lidar com a atenção sexual que o filme trouxe. O pós-filme fez Andrésen não saber avaliar as motivações das pessoas para com ele.

Com um leve toque mais luminoso e otimista, O Garoto Mais Bonito do Mundo termina com pai e filha se reencontrando e tendo uma conversa dura, mas franca. Eles lamentam acontecimentos e refletem sobre o que poderia ter sido diferente. A filha comenta sobre como é triste assistir à audição do pai para Morte em Veneza. Ela questiona quem Andrésen poderia ter sido, se nunca tivesse sido escalado para o filme.

O Garoto Mais Bonito do Mundo (2021)

O documentário nos mostra a trajetória de Andrésen de forma delicada e lenta, o que entra em contraste direto com toda a rapidez em que ele ganhou holofotes durante a adolescência e com a agressividade com que aqueles adultos se relacionavam com ele. Alguns pontos poderiam ter sido mais claros e com mais esclarecimentos, mas dá para entender que Kristina Lindström e Kristian Petri optaram por um filme delicado e artístico, que fala sobre a tragédia de uma inocência perdida muito cedo.

O Garoto Mais Bonito do Mundo mostra um retrato assustador dos efeitos nocivos da fama, em especial as sexualizadas e em uma idade precoce. Ilustra os efeitos da exploração de atores muito jovens na indústria cinematográfica, adotando um tom pessimista e melancólico, mas ainda assim empático. É um documentário sombrio sobre o que acontece quando adultos criam símbolos sexuais infantis.

O Garoto Mais Bonito do Mundo faz parte da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 21 de outubro e 3 de novembro em formato híbrido, online e presencial.

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