O Instagram tem muito efeito em nosso psicológico; veja o que sabemos até agora
Belle (nome fictício) é uma modelo australiana com mais de 300 mil seguidores no Instagram. Trabalhando sob as pressões da indústria da moda, Belle sabe em primeira mão o sofrimento psicológico que o Instagram pode causar e quão enganoso são as fotos do estilo de vida de uma pessoa na rede social.
Começando sua conta em 2013, Belle começou a cultivar uma persona online que ela sabia que não representava honestamente quem ela era em casa, e descobriu que isso tinha enormes consequências para a sua saúde mental. Sua presença no Instagram passou a se concentrar fortemente em bem-estar e em postar refeições saudáveis, rotinas de exercícios excessivas e fotos de seu corpo magro. Usuários comentavam em suas fotos de lingerie vários elogios como “Amo o seu corpo!” e “Garota, que barrigaaaaaa”.
Todo o tempo, Belle estava sofrendo dismorfia corporal, restringindo sua dieta de forma perigosa e tendo ataques de pânico. “Quando eu estava construindo uma pessoa falsa online, eu costumava me sentir realmente ansiosa e solitária. Eu estava num lugar muito ruim mentalmente e achava difícil ter em mente o fato de que as vidas de todos eram tão curadas quanto a minha”, disse ela. Belle se lembra de ter experienciado extrema ansiedade sobre a manutenção das rotinas de treino e ficar em pânico quando lhe foi oferecido algo “não planejado” para comer. “A dissonância entre minha vida privada e pública costumava me irritar – e francamente me arrepio ao ver as coisas que costumava dizer publicamente sobre nutrição e alimentação”, admite.
Agora que ela entende sua doença mais completamente, Belle faz um esforço para retratar a si mesma e sua vida no Instagram mais honestamente. Mas ela ainda acha difícil navegar na rede social. “Eu evito muitas coisas de conteúdo ‘fit’, sei o que se passa nelas. Eu vivi isso e é horrível”, disse. “Eu realmente me sinto muito triste por essas pessoas”.
Enquanto as pesquisas sobre o impacto do Instagram no nosso psicológico ainda são relativamente novas, há aumento na evidência que sugere que o aplicativo tem implicações em como as pessoas percebem a si mesmas e o mundo em sua volta. No início do ano, a Royal Society for Public Health e Young Health Movement publicaram um estudo sobre o impacto de diferentes redes sociais na saúde mental.
O estudo se baseou numa pesquisa feita com mais de 1.400 britânicos entre 14 e 24 anos de idade. Eles foram perguntados sobre as implicações positivas e negativas que cada rede social tinha para sua saúde e bem-estar.
Fatores positivos incluem coisas como consciência e entendimento sobre as experiências de saúde de outras pessoas, acesso a informações sobre saúde, oportunidade de expressão e construção de comunidade. Fatores negativos incluem ansiedade, depressão, solidão, qualidade do sono, impacto na imagem corporal e “medo de ficar por fora” (Fear of missing out, conhecido como “FOMO”).
Baseado na audiência de adolescentes e jovens adultos, cada plataforma tem uma pontuação. O Youtube foi a com efeito mais positivo entre os usuários, enquanto o Instagram foi o que teve mais efeito psicológico negativo. Instagram teve boa pontuação em sua habilidade de permitir autoexpressão, mas foi linkado com as piores pontuações em perda de sono, preocupação com imagem corporal e FOMO.
Belle concorda que, quando o usuário usa corretamente, Instagram pode dar bons sentimentos, apesar de experiências negativas. “Eu amo o sentido de conectividade que sinto com meus seguidores e pessoas que eu sigo. Eu amo o movimento de positividade corporal e ver pessoas serem reais sobre si próprias online”, explicou a modelo.
Então, como exatamente o Instagram está afetando o nosso psicológico? Há muito para a ciência descobrir e o impacto do Instagram na imagem corporal parece um lugar óbvio para começar. A plataforma foi criada para compartilhar imagens e agora é dominada por postagens de estilo de vida, fotos de celebridades e de “influencers”, celebridades das redes sociais que agem como figuras de marketing de guerrilha.
O mercado de influencer do Instagram está projetado a valer US$ 2 bilhões globalmente em 2019, de acordo com a agência Mediakix. A exposição na internet já foi vista como algo com impacto negativo por internalizar padrões não-realistas e comparação com os corpos de outras pessoas. E agora a pesquisa mais recente está focando apenas em redes sociais.
Um estudo descobriu que o uso de redes sociais aumenta a obsessão de meninas com seus corpos, um efeito que não era encontrado com a exposição a revistas e televisão. Rachel Cohen, psicóloga e pesquisadora do Black Dog Institute na University of New South Wales, contou ao BuzzFeed News que a exposição de influencers no Instagram pode ter um efeito único na autopercepção e imagem corporal.
“O problema com o Instagram é que a cultura de celebridade ficou quase infinitamente pior – porque não é apenas as Kardashians ou grandes celebridades, agora são as pessoas do dia a dia”, explicou. “Há muitas influencers e pessoas que estão ganhando um status elevado e há exponencialmente mais oportunidades de se comparar com outras pessoas”.
Num estudo publicado ano passado, Cohen e suas co-autoras descobriram que não é a rede social em si que impacta como as pessoas percebem os seus corpos, e sim a forma que elas estão usando. Seguir contas no Instagram focadas em corpo e aparência em vez de contas mais neutras, como de viagem, foi associado com idealizar corpo magro, observação obsessiva do corpo do outro e lutar pela magreza.
“Fitspiration” (“inspiração fit”, em tradução livre) é um grande negócio no Instagram, com treinadores celebridades construindo impérios com rotinas de exercícios. A treinadora Kayla Itsines e sua parceira tem uma foturna de US$ 46 milhões, muito por causa do sucesso de sua conta no Instagram.
“Com fitspiration, muitas pessoas procuram inspiração e motivação e elas têm alguns elementos de inspiração. Mas há algumas pesquisas que mostram que isso faz as pessoas se sentirem pior e que não necessariamente aumenta sua rotina de exercícios ou saúde”, contou Cohen. “Eu descobri que não é o uso das redes sociais que está relacionado com essa busca pelo corpo, e sim tipos específicos de engajamento – seguir Kardashians ou contas fits ou seguir qualquer coisa que tem foco na aparência”.
Pesquisas já feitas e que não eram focadas em redes sociais sugeriram que os problemas com “fitspiration” aconteciam mais com mulheres que eram expostas a corpos magros e tonificados, enquanto imagens de mulheres com peso normal não criava insatisfação com o corpo. Estando nos bastidores de uma conta do Instagram que envolvia elementos de “fitspiration” durante sua doença, Belle diz que agora fica triste com esse tipo de imagens.
Cohen publicou um estudo este ano que fala sobre a associação entre selfies e preocupações com o corpo em mulheres jovens. Ela descobriu que investimento grande em atividades de selfies, como preparação com fotográfos e edições após as fotos, está mais fortemente associado com insatisfação com o corpo e preocupação com alimentação do que o normal. Cohen pegou um termo para explicar por que isso pode estar ocorrendo: auto-objetificação. “É basicamente quando uma mulher internaliza essa visão objetificada dela mesma e começa a se ver como um objeto”, explicou Cohen.
Esse fenômeno de auto-objetificação foi observado em 259 mulheres entre 18 e 29 anos, com metade afirmando que tira pelo menos uma selfie a cada 15 dias. Cohen e suas co-autoras descobriram que tirar selfies estava constantemente associado com baixa satisfação com o corpo, busca pela magreza e bulimia.
“Se você pensar em todos esses aplicativos que você pode usar com filtros e manipulando o seu corpo, é quase como se você tivesse um Photoshop no seu telefone. Você está literalmente manipulando sua imagem para se encaixar nas normas sociais, para ser aceito pelos outros”, disse ela. “Você está quase começando a objetificar, a se ver como um objeto”.
Como modelo e personalidade de Instagram, Belle diz que se vê nesse conceito. “Quando meu Instagram virou essa identidade de modelo, eu com certeza achei mais difícil. Se eu não estivesse modelando, eu existia de verdade? Mas depois de um tempo eu percebi que isso não significava nada. Eu sou uma pessoa completa além de modelo e Instagram”, afirmou Belle.
Em 2004, Dr. John Suler, professor de psicologia da Rider University de New Jersey, falou sobre o efeito de desinibição online, fenômeno que explica comportamentos que só existem online e a construção de uma personalidade virtual. Ele explica que essa desinibição virtual é evidente quando as pessoas estão em ambientes sociais na internet e se sentem com menos restrição e que podem se expressar mais abertamente. De acordo com Suler, isso pode aparecer de duas formas: desinibação tóxica e benigna.
Dr. Jaimee Stuarte, da Griffith University, falou sobre essa desinibição online. “Há uma grande parte do Instagram que está simplesmente explorando e expressando quem são – que eu considero parte da desinibição benigna, pessoas podem te dar feedback, mas não de uma forma ruim”, disse ele. Stuart acredita que quando pessoas usam o Instagram para documentar suas vidas, compartilhar rotinas diárias ou se expressar pode ser útil e seguro. “Quando você posta coisas que são a melhor versão de você e isso te faz feliz e expressa quem você é, não há nada de errado com isso”, explicou.
De acordo com Stuart, Instagram vira problemático quando usuários reconhecem que aquilo não é como sua vida real e que o conteúdo é postado para outras pessoas, e não uma representação real da sua vida. Stuart notou que postar conteúdo “quando você sabe que não é como sua vida real” e “não é você de verdade” tem um efeito negativo no psicológico de uma pessoa.
As experiências negativas de Belle e reconhecimento de sua personalidade no Instagram a deixou com um sentimento misto. “Por um lado, eu amo o senso de conectividade que sinto com meus seguidores e pessoas que sigo. Eu amo o movimento de positividade corporal e ver pessoas sendo reais sobre si mesmas online. Por outro lado, acho triste ver como algumas pessoas existem apenas para o Instagram atualmente”, disse ela.
Agora ela tem duas contas: uma dedicada à sua vida privada e outra públicada dedicada à sua carreira. Belle também mudou o conteúdo de sua conta pública para focar mais em positividade corporal. “Ter a separação entre privado e público foi ótimo”, disse ela. “Eu não me sinto confortável com a ideia de mim mesma como objeto, porque eu não sou. No fim do dia, se você olhar para as redes sociais para se entender por completo, sempre vai ficar algo faltando”.
Essa matéria foi traduzida do Buzzfeed News. Leia a matéria original, em inglês, aqui.
