[Crítica] Estou me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar (2019)

Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar, documentário de Marcelo Gomes, inaugurou a nova fase da Sessão Vitrine. Antes chamado de Sessão Vitrine Petrobras, o projeto não tem mais patrocínio da empresa. Em tempo: o projeto lança um filme de forma simultânea nas salas de 20 cidades de país e plataformas digitais. Os ingressos custam até R$ 15 e os filmes são sempre nacionais, independentes e contemporâneos. Em algumas das salas há debate.




Agora vamos ao filme. O documentário mostra a rotina dos trabalhadores da cidade de Toritama, no agreste de Pernambuco. A cidade é considerada a capital brasileira do jeans: 20% de todo o jeans nacional é produzido por lá. Grande parte de seus mais de 40 mil habitantes trabalham, em algum grau, nessa produção. A maioria da produção é feita por trabalho informal. As pessoas ganham um valor por cada peça confeccionada.

O documentário tem uma abordagem direta, mas que esconde muita profundidade e complexidade ao mostrar uma realidade que parece simples. Tudo o que se faz em Toritama é trabalhar. E os moradores de lá vivem bem com isso. Eles afirmam que precisam ir a outros lugares para se divertir, pois não há opções na cidade. Eles estão sempre à espera do Carnaval. A população de Toritama espera, todos os anos, a data para passar na praia.

No restante do ano, trabalham desde cedo até tarde. Eles são autônomos, portanto não têm direitos trabalhistas, e trabalham 15 horas por dia, todos os dias. Sem queixas. Eles argumentam que se sentem livres com esse ritmo e estilo de trabalho. Sentem-se donos do próprio nariz e administradores de seus próprios tempos. E são seus próprios patrões. Estão errados? Estão certos? Nós temos propriedade para responder isso?




O documentário consegue mostrar bem como todas aquelas pessoas já internalizaram a rotina de trabalho sem parar. E como falam tranquilamente que não têm do que reclamar, já que poderiam “ser uma daquelas pessoas da África que morrem de fome”. Somos apresentados a esse microcosmo do capitalismo, mas não vemos ninguém infeliz – pelo menos não conscientemente.

A relação com o Carnaval também é interessante de acompanhar. Como a cidade não tem opções de diversão e todos sentem a necessidade de passar o Carnaval na praia, nesta época do ano Toritama vira uma cidade-fantasma. Algumas pessoas que já passaram a data por lá garantem que não vale a pena e que não querem repetir a experiência. E, para que isso não aconteça, fazem o que for preciso. Se não tiverem dinheiro para viajar, vendem fogão, geladeira, pegam emprestado…

Um dos vários pontos positivos do filme é que Marcelo Gomes não se coloca acima de quem está sendo filmado. Não há nenhum tom de prepotência ou de alguém que entrou num espaço desconhecido para descobrir o que está acontecendo. O cineasta tem história com a cidade, o carinho com o assunto é palpável e sempre parte de perguntas práticas. As respostas são sempre ótimas de se ouvir, além de nos convidarem a reflexões. É de dar um nó na cabeça, muitas vezes.




Outro ótimo ponto do documentário são os seus personagens. Todos dão declarações fortes ou engraçadas e são filmados com carinho. Em uma das melhores cenas do longa, o cineasta e narrador fala sobre a agonia de ficar assistindo àquele trabalho repetitivo. Para tentar dar menos ansiedade, ele coloca uma música clássica de fundo.

Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar foi exibido na Mostra Panorama no Festival de Berlim e ganhou o Prêmio da Crítica, Menção Honrosa do Júri Oficial e Menção Honrosa do Júri da ABD-SP do Festival É Tudo Verdade.

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